O Estúdio Clarice, junto com a Estratégia Latina e o Instituto Ideia, publicou uma importante pesquisa sobre as apostas online no universo feminino, veiculada em reportagem nesta Folha ("Mães endividadas apostam online em busca de renda, aponta estudo", 16/8). Mas a realidade das apostas é mais silenciosa —especialmente para as mulheres. Aposta-se mais em jogos online (os cassinos digitais). Vencer ou perder é 100% uma questão de sorte e, segundo determina uma portaria do governo, o retorno ao jogador (RTP, em inglês) precisa ser no mínimo de 85%, número certificado por laboratório terceirizado credenciado. A pesquisa tenta mostrar como essa cultura do cuidado se traduz no mundo das apostas. O levantamento aponta de forma clara que a grande parcela das mulheres aposta para realizar o sonho de alguma pessoa querida. E sai com um saldo negativo. Percebe-se o dano que a falta de informação de qualidade faz às apostadoras. Usar bets como forma de completar renda não é uma opção —e nem é correto, de acordo com as diretrizes de jogo responsável. Algumas pessoas podem até sair com mais dinheiro do que depositaram, mas se trata meramente de sorte. Apostar deve, e precisa, ser visto como uma diversão. E nada mais. Mas, para que a medida seja eficaz, é preciso encontrar não só o remédio correto, como, antes dele, o diagnóstico correto. E é aí que a pesquisa poderia ser melhor e ajudar mais mulheres. O estudo não separa as apostadoras que apenas se divertiram daquelas que sofreram danos; inclui também todo mundo que não mais aposta dentro do grupo problemático. Também não separa quem sofreu danos antes ou depois do mercado regulado (recente, porém, presente) nem separa bets legais (aquelas que têm o ".bet.br") das ilegais. Sem isso não dá para medir corretamente os efeitos da legalização e da regulamentação sobre o problema —e traçar as correções necessárias. É preciso mais informação, possivelmente outra pesquisa que colete dados para estabelecer políticas públicas efetivas para auxiliar essas mulheres. Em 2025, isso mudou. Com as novas regras, exigências robustas —desde qualificação técnica até a responsabilidade social do jogo, passando por proteção aos mais vulneráveis— estão em vigência. Todas as bets legalizadas precisam seguir, sob pena de perderem sua autorização para operar e responsabilizar os donos em seus próprios CPFs. Por fim, é preciso lembrar que há mulheres não apenas entre as apostadoras como também entre os profissionais do setor. Há milhares de mulheres, ocupando posições do primeiro ao último degrau da hierarquia empresarial. A Associação de Mulheres da Indústria do Gaming (Amig), da qual sou uma das fundadoras e atual diretora, é a mais ativa e representativa de todo o setor e conta com milhares de mulheres que trabalham diariamente para construir uma indústria íntegra, responsável e sustentável. Ainda há um caminho até que esse setor abrace todas as regras que foram criadas para proteger as pessoas e a economia —afinal, surgem novas regras e restrições quase diariamente. Mas a conformidade está avançando e, entre os operadores devidamente licenciados, os problemas estão sendo enfrentados; deve-se evitar o discurso fácil da proibição. Afinal, proibir não acabará com as apostas, apenas com a proteção às apostadoras —efeito contrário ao que o estudo pede. Precisamos que a regulamentação seja forte e fiscalize as atividades dessas operadoras para que, no fim, tenhamos um mercado que efetivamente proteja todas as mulheres: apostadoras e trabalhadoras. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
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