A indústria de games da China passa por uma transformação. A exemplo de outros produtos de alta complexidade exportados pelo país, como carros elétricos e microchips, jogos chineses aos poucos deixam de carregar o estigma de imitações pouco originais de versões superiores fabricadas nos Estados Unidos, no Japão ou na Europa. Em muitos casos, competem no mesmo patamar com grandes lançamentos de estúdios consolidados. O primeiro jogo do chamado escalão "AAA" —isto é, com alto orçamento e qualidade técnica— da China a alcançar fama mundial e colecionar críticas favoráveis foi "Black Myth: Wukong", lançado há dois anos e que já tem sequência confirmada. Agora, o estúdio S-Game, que nunca lançou um jogo desse porte antes, espera que "Phantom Blade Zero" se junte a Wukong como outro exemplo de um jogo chinês não apenas competente tecnicamente, mas cativante o bastante para disputar com americanos e japoneses. A S-Game e seu diretor, Qiwei "Soulframe" Liang, foram bem-sucedidos na empreitada. "Phantom Blade" é um RPG nos moldes clássicos do "soulslike" que faz bem tudo o que define esse gênero —é bastante desafiador, tem chefes que exigem várias tentativas antes de serem superados, possui progressão relativamente linear e checkpoints fixos. Ao mesmo tempo, traz inovações que casam muito bem com a ambientação do jogo, fortemente insipirada no cinema de kung fu da China e de Hong Kong. Nele, o jogador controla Soul, um guerreiro que vive no Wulin —um termo que significa, literalmente, "floresta marcial" e representa o fictício submundo escondido das artes marciais, dos espadachins e dos herois clássicos da literatura chinesa. O Wulin está sob ataque. Uma doença misteriosa transforma pessoas em fantoches, e Soul, acusado de um crime terrível que aparenta não ter cometido e gravemente ferido no início do jogo, tem apenas 66 dias de vida para se vingar. A história é, de fato, um pouco genérica e não muito cativante, e a dublagem —considerando a versão em chinês— não é especialmente inspirada. Com cerca de 20 horas de jogo, é difícil estar particularmente interessado em descobrir se Soul, de fato, encontrará a vingança que busca e que fim levarão os personagens secundários da trama. Felizmente, "Phantom Blade" não é um filme. A história serve apenas de pano de fundo para o combate, que realmente faz o jogo brilhar acima de outros "soulslikes" bem menos interessantes publicados aos montes todos os anos. As animações, tanto de Soul quanto de inimigos, são variadas o bastante para criar a imersão de que se está dentro de um clássico de kung fu. Combo A newsletter da Folha com o que interessa sobre a indústria de games e com as dicas do que você ainda vai jogar. Em especial, Soul tem ataques e reações específicas a determinados chefes. Contra um deles, um espadachim bêbado no melhor estilo de Jackie Chan em "O Reino Proibido", o protagonista pode segurar a espada do inimigo com os pés, dançar ao redor dele e, depois de derrotá-lo, adquirir sua arma —e sua garrafa de álcool, com uma divertida mecânica na qual, quanto mais bebe, mais forte e menos móvel fica. No geral, para o combate, o jogo toma como inspiração o clássico "Sekiro: Shadows Die Twice", da japonesa FromSoftware, e enfatiza um conjunto de desvios, bloqueios e aparos que o jogador precisa utilizar até desgastar a barra de guarda do oponente e, enfim, causar-lhe dano. A diferença é que, enquanto em "Sekiro", basta quebrar a guarda uma vez, "Phantom Blade" exige que o jogador o faça várias vezes para derrotar um chefe. Por outro lado, inimigos comuns não voltam à vida uma vez derrotados, ao contrário do que ocorre em vários jogos parecidos, e chefes com mais de uma fase não retornam à primeira se Soul for derrotado. Outra inovação é o sistema de armas. O jogo incentiva o jogador a combiná-las o máximo possível: ao apertar um botão, Soul troca de arma, recupera guarda e ataca ao mesmo tempo, uma mecânica que se torna essencial em lutas mais difíceis. As armas são bastante variadas entre si, e a facilidade de resetar seu nível significa que é preciso sempre repensar sua estratégia ao longo do jogo, deixando-o mais interessante. Outros aspectos do jogo que merecem elogios são a trilha sonora, que mistura instrumentos tradicionais chineses com música eletrônica para criar uma ambientação surpreendentemente imersiva, e os gráficos lindíssimos da China ficítica em que vive Soul. Saindo por cerca de R$ 230, abaixo do preço de outros jogos "AAA", "Phantom Blade Zero" pode ser uma boa opção para o jogador em busca de um jogo de ação divertido, original e que se destaca da maioria dos "soulslikes" no mercado. O jornalista recebeu uma cópia do jogo para teste.
Com ar de cinema de kung fu, 'Phantom Blade Zero' � �timo RPG chin�s
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