Virada de Lula leva �nico eleito 4 vezes e 1� oper�rio na Presid�ncia a outro feito hist�rico

Virada de Lula leva �nico eleito 4 vezes e 1� oper�rio na Presid�ncia a outro feito hist�rico

A virada de Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro, que parecia improvável até as vésperas do segundo turno, é mais uma proeza de um político que se acostumou a acumular feitos históricos. O petista derrotou o senador do PL. Primeiro operário a virar presidente da República, detentor da maior aprovação de um chefe do Executivo no país (em 2010, ao final do segundo mandato), único a ser eleito depois de um período na cadeia e primeiro a vencer o ocupante do cargo (Jair Bolsonaro, em 2022). A reversão de um resultado adverso na primeira etapa, inédita no país até este domingo (25), aumenta a coleção, ampliando ao mesmo tempo duas marcas conquistadas por Lula na eleição passada: o potencial recorde de votos absolutos e a condição de único a ser eleito presidente quatro vezes. Ao final do quarto mandato, completará 16 anos no poder, estendendo a condição que já detém de segundo com mais tempo no cargo, atrás somente de Getúlio Vargas, que governou por 18 anos e seis meses, em dois períodos diferentes (1930-1945 e 1951-1954). Como os mandatos de Getúlio foram frutos primeiro de um golpe (a chamada Revolução de 30), depois de uma eleição indireta (1934) e em seguida de outro golpe (da ditadura do Estado Novo, 1937-1945), tendo o líder gaúcho sido eleito pelo voto direto em apenas uma ocasião (1950, no governo abreviado em 1954 por seu suicídio), Lula é o presidente que governou por mais tempo o país sob a democracia, escolhido pelos brasileiros. Em se tratando de Lula, é arriscado cravar, mas é muito provável que seja o seu último mandato. Aos 80 anos, quase 81 (completa em 27/10), terá 85 ao final da nova gestão, em 2030. Como foi reeleito, não poderá concorrer novamente daqui a quatro anos. Em 2034, terá 89, idade elevada até para quem diz pretender viver até os 120 anos. Superar grandes adversidades é, no caso de Lula, um traço que vem da infância. Sétimo dos oito filhos de um casal de lavradores pobres, Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Mello, a Lindu, Luiz Inácio da Silva nasceu em Garanhuns, no agreste de Pernambuco –no distrito de Caetés, hoje emancipado. Quando a mãe estava grávida dele, Aristides migrou para São Paulo em busca de emprego. Aos 7 anos, o garoto embarcou com a mãe e os irmãos num caminhão pau de arara para se juntar ao chefe que abandonara a família, numa viagem de 13 dias. Viveram em Santos até Lindu se separar de Aristides, um homem violento e alcoólatra que durante seu período paulista sem a esposa já tinha constituído outra família. A jornada de dona Lindu para cuidar sozinha da prole na cidade grande serviria de inspiração para Lula, que até hoje cita a mãe como sua heroína, modelo de virtude e referência moral. Ainda menino, enquanto estudava, Lula foi vendedor de laranja, amendoim e tapioca, auxiliar de tinturaria, telefonista, engraxate e office boy. Aos 14 anos, consegue seu primeiro emprego fixo, na fábrica de parafusos Marte. Aos 15, entra num curso de torneiro mecânico no Senai, que lhe garante a profissão na qual trabalhou pelos anos seguintes: metalúrgico. Aos 17 anos, como disse no debate da Globo, perdeu o dedo mindinho da mão esquerda num acidente com uma prensa quando era torneiro mecânico na metalúrgica Independência. Lula casou-se pela primeira vez aos 23 anos, com a operária Maria de Lourdes, que morreria grávida de oito meses vítima de hepatite –o bebê também morreu. Teve sua primeira filha, Lurian, em 1974, de uma relação com a enfermeira Miriam Cordeiro, enquanto namorava com Marisa Letícia Rocco Casa. Casou pela segunda vez ao final deste mesmo ano com Marisa, com quem teve outros três filhos biológicos (Fábio Luís, Sandro Luís e Luís Cláudio), além de adotar o primogênito dela (que também era viúva), Marcos Cláudio. Lula começou a participar de reuniões e atividades no Sindicato de Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema em 1969, levado pelo irmão Frei Chico. Seis anos depois, em 1975, foi eleito presidente da entidade. Tornou-se conhecido nacionalmente ao liderar greves de trabalhadores no ABC paulista no final dos anos 70, nos estertores da ditadura. Foi um líder sindical pragmático. "No sindicato, adorava encher a boca pra falar: não gosto de política e não gosto de quem gosta de política. (...) Daí eu descobri que não dava pra fazer nada fora da política", relembrou anos depois. Com a projeção nacional do movimento, a ditadura fechou o cerco sobre o sindicato, que sofreu intervenções do governo. Em 1980, Lula foi preso com base na Lei de Segurança Nacional. No mesmo ano, já ciente da necessidade de participar da política institucional, funda o Partido dos Trabalhadores, reunindo sindicatos, setores progressistas da Igreja Católica, movimentos sociais e universitários e intelectuais de esquerda como Antonio Candido, Mário Pedrosa, Lélia Abramo e Sérgio Buarque de Holanda. Em 1982, para disputar sua primeira eleição (ao governo de São Paulo), acrescenta em cartório o apelido Lula ao sobrenome. Termina em quarto lugar. Em 1986, é eleito deputado federal constituinte (o mais votado do país), com 651,7 mil votos. A trajetória vencedora de Lula como presidente foi precedida por três tentativas frustradas de chegar ao Planalto. Na primeira, em 1989 perdeu para Fernando Collor (PRN) no segundo turno; em 1994 e 1998, foi derrotado por Fernando Henrique Cardoso (PSDB) no primeiro turno. Em 2002, a estratégia de ampliar alianças, escolhendo o empresário José Alencar (PL) como vice; acalmar o mercado, com a publicação da Carta ao Povo Brasileiro –pela qual se comprometeu a honrar contratos e equilibrar as contas públicas–; e profissionalizar a campanha, contratando o publicitário Duda Mendonça, foi exitosa. Com 52,8 milhões de votos (61,3%), venceu José Serra (PSDB) no segundo turno. Lula elegeu o combate à fome como prioridade e lançou o programa Fome Zero, embrião do Bolsa Família. Na economia, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, manteve a política da era FHC, baseada no chamado tripé macroeconômico (metas de inflação, austeridade fiscal e câmbio flutuante). O final do primeiro mandato foi abalado pelo escândalo do mensalão, um esquema de compra de apoio parlamentar no Congresso que derrubou o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu. Lula recuperou a popularidade e se reelegeu em 2006, ao vencer Geraldo Alckmin (PSDB) no segundo turno. Seu segundo mandato foi marcado por grandes obras de infraestrutura e forte crescimento (média de 4,6%/ano), apesar da crise internacional de 2008. O bom momento da economia se refletiu em popularidade aqui e alhures. Em 2009, o presidente dos EUA, Barack Obama, brincou com a situação. "Esse é o cara. Eu adoro esse cara. O político mais popular do mundo." Em 2010, ao final do mandato, Lula teve índices de aprovação acima de 80% (Datafolha, 83%; Ibope, 87%), recorde histórico para um presidente. Fez a sucessora, a ministra Dilma Rousseff, reeleita em 2014, que sofreria impeachment, com o vice Michel Temer assumindo o cargo. Alvo da Operação Lava Jato, Lula foi condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro e preso por ordem do juiz Sergio Moro quando liderava as pesquisas para a eleição de 2018. Passou 580 dias preso até ter suas condenações anuladas pelo STF. Solto em novembro de 2019, foi eleito presidente pela terceira vez em 2022, ao derrotar Jair Bolsonaro por 50,9% a 49,1%, a margem mais estreita da história. Em seu terceiro mandato, teve como bandeira a reconstrução de país após a gestão Bolsonaro. A pobreza e a fome diminuíram, e a renda e o emprego melhoraram. Por outro lado, a dívida pública e os juros aumentaram, pressionando as contas do governo. Conseguiu aprovar no Congresso a isenção de IR para quem ganha até R$ 5 mil e o fim da escala de trabalho 6 x 1. Sua gestão esteve envolvida no escândalo de descontos indevidos na folha de pagamento de aposentados do INSS —que começaram no governo Temer, continuaram sob Bolsonaro e cresceram sob Lula, quando a PF e a CGU desbarataram o esquema. Com a repercussão do caso, o ministro da Previdência, Carlos Lupi, foi demitido. Em 2022, Lula se casou pela terceira vez, com a socióloga Rosângela da Silva, a Janja.

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