Luiz Inácio Lula da Silva (PT), prestes a completar 81 anos de idade, deu mais uma mostra de vigor pessoal e político ao conseguir uma inédita virada em segundo turno e reeleger-se, neste domingo (25), para seu quarto mandato presidencial com 52% dos votos válidos. Se o feito reforça sua condição de maior líder popular brasileiro deste século, urge que a soberba não o impeça de compreender o significado de sua vitória dada como improvável até o dia anterior. Seu governo foi mal avaliado pela sociedade, o que quase lhe custou ser batido por um político de pouca expressão, nenhuma experiência no Executivo e ligações rumorosas —Flávio Bolsonaro (PL), como se não bastasse, seria também um risco para a normalidade democrática. Para superar o rival, Lula recorreu, como nunca o fizera em disputas anteriores, ao uso descarado da máquina pública. Empilhou benesses e promessas casuísticas, conspurcou programas e tornou ainda mais pesada a herança de déficits e dívidas que deixará para si próprio. Ainda que tenha preservado a alto custo sua cadeira no Planalto, não pôde impedir que forças à direita ampliassem, novamente, sua participação no Legislativo e nos estados —o que será outro grande obstáculo desde já. Tudo isso deveria ser mais do que suficiente para inspirar autocrítica e correção de rumos. Há mais, porém: é tão grave a crise orçamentária semeada pelo petista que será preciso escolher entre um ajuste duro e potencialmente impopular, renegado na campanha, e a rota de um colapso econômico. Sem conter o déficit do governo, os juros permanecerão na estratosfera e levarão a uma recessão que elevará a pobreza e o desemprego. A nova chance que Lula recebeu do eleitorado será também, muito provavelmente, a última. Sua impressionante trajetória política será enriquecida se encerrada com atitude de estadista, que busca o interesse público antes da popularidade. Seu terceiro governo já deveria ter sido, como se prometera, de frente política ampla. No entanto as forças ao centro receberam não mais que postos subalternos no primeiro escalão, preenchido muito mais com critérios de afinidade partidária e ideológica que de competência técnica. Relações de confiança também foram os parâmetros principais para as indicações para a Procuradoria-Geral da República (PGR) e o Supremo Tribunal Federal (STF), o que contribuiu para o descrédito da corte, ora em crise inaudita. A despeito dos esforços quixotescos de Fernando Haddad na Fazenda, a política econômica foi ditada ora pelas crendices, ora pelas conveniências eleitoreiras de Lula e do PT. Está hoje desacreditada por completo. O mandatário preferiu reeditar políticas do passado a adaptar-se a um novo contexto doméstico e global, bem mais adverso que o de suas primeiras passagens por Brasília. Que mire o futuro agora e faça um bom quarto governo. editoriais@grupofolha.com.br
Lula ganha nova chance de corrigir seu governo
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