Em 2024, pesando 95 quilos e tomando medicamentos para controlar a pressão arterial, Dan Sherry recebeu uma prescrição de Ozempic. Hoje, aos 58 anos, Sherry pesa 72,5 quilos e sua pressão arterial está controlada. Ele anda de bicicleta diariamente e sua cintura diminuiu 15 centímetros. Uma das principais mudanças foi na alimentação. Sherry, enfermeiro que mora em Holland, Michigan, passou a comer menos fora e, quando sai com amigos, bebe menos álcool e geralmente come apenas metade da refeição. O uso crescente dos medicamentos GLP-1, hormônios produzidos naturalmente pelo corpo humano que atuam no controle dos níveis de glicose no sangue e nos mecanismos de saciedade, está transformando o comportamento dos consumidores e os hábitos de compra em diversos setores. Mas talvez nenhum esteja passando por uma transformação tão ampla quanto o de alimentos. "Minha conta de supermercado provavelmente caiu de 10% a 15%", disse Sherry. "O maior gasto foi com roupas novas." Durante décadas, as empresas cresceram incentivando as pessoas a comer mais. Nos supermercados, consumidores enchiam os carrinhos com promoções e embalagens maiores. Mas os medicamentos retardam a digestão, fazendo com que as pessoas consumam menos calorias por dia. Médicos frequentemente orientam os pacientes a consumir mais proteína para preservar a massa muscular e mais fibras para reduzir problemas gastrointestinais. Assim, os consumidores não estão apenas comendo menos, mas também de forma diferente, reduzindo pães e massas e aumentando carnes e vegetais. As vendas de bebidas alcoólicas, salgadinhos, sorvetes e refrigerantes já foram afetadas pelos usuários dos medicamentos. Estudos também mostram mudanças nos gastos com roupas, atividades físicas e perfumes. Os restaurantes observam mudança semelhante. Em agosto, Brett Schulman, CEO da rede Cava, disse a analistas de Wall Street que o uso de GLP-1 havia levado a um aumento nos pedidos de refeições infantis por adultos. Sherry é um dos milhões de americanos —cerca de 11% da população adulta— que recorreram a injeções semanais de medicamentos como Wegovy, Ozempic e Zepbound para perder peso. E esse número deve aumentar. Até 14% da população demonstra interesse, especialmente com a maior disponibilidade de versões em comprimidos. A alta dos preços de alimentos e combustíveis neste ano fez com que consumidores colocassem menos itens nos carrinhos e fizessem menos refeições fora de casa. Fabricantes também estão sob pressão do governo Trump para eliminar corantes sintéticos, como parte do movimento Make America Healthy Again. A Food and Drug Administration ameaçou promover mudanças nos chamados alimentos ultraprocessados. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Analistas do JP Morgan estimam que, à medida que os tratamentos com GLP-1 se disseminarem, as receitas do setor de alimentos e bebidas podem cair até US$ 55 bilhões até 2030. Diante da queda nas vendas, empresas correm para desenvolver produtos para esses consumidores. Elas estão lançando waffles congelados, iogurtes, biscoitos e salgadinhos com mais proteína ou fibras. Há Doritos, macarrão com queijo e Pop-Tarts com mais proteína. A PepsiCo lançou uma versão dos SunChips com mais fibras, e a WK Kellogg ampliou o marketing de cereais ricos em fibras. "Agora só compro os iogurtes que têm 20 gramas de proteína, em vez dos que têm 13 gramas", disse Helen Berman, advogada aposentada em Los Angeles que começou a tomar Zepbound há um ano. Ela disse ter perdido 14,5 quilos e não comprar sorvete Häagen-Dazs há um ano. A Campbell’s lançou em julho uma linha de sopas ricas em proteínas após pesquisa indicar que alguns consumidores buscavam alimentos para lidar com efeitos colaterais. As vendas da empresa caíram 8% no trimestre encerrado em 2 de agosto. Para criar as sopas, a Campbell’s partiu de seu caldo de ossos e acrescentou carne, feijão e vegetais para aumentar proteínas e fibras, disse Jennifer Prebola, responsável pela pesquisa e desenvolvimento. Cada lata contém 20 gramas de proteína. Em 2024, a Nestlé lançou a Vital Pursuit, linha de refeições congeladas comercializadas como "adequadas para usuários de GLP-1". Os produtos mais vendidos são pizzas com 33 gramas de proteína e 17 gramas de fibras. "Desenvolvemos o produto para usuários de GLP-1", disse Federico Sarzi Braga, presidente da área de alimentos congelados da Nestlé USA. "Mas apenas 20% desse negócio vem de um usuário efetivo de GLP-1", afirmou, citando a Circana. Alguns restaurantes estão reduzindo porções ou acrescentando proteínas para atrair consumidores que usam os medicamentos. No início deste ano, a Olive Garden lançou um menu de "porções menores", com versões reduzidas de seus pratos a preços mais baixos. A Chipotle lançou um menu com mais proteínas, incluindo pratos classificados como "adequados para usuários de GLP-1". Em entrevista à Harvard Business Review em agosto, Chris Kempczinski, CEO do McDonald’s, disse que a empresa ainda não havia observado impacto significativo dos GLP-1 em seus negócios, além de aumento nos pedidos de refeições infantis por adultos. Ainda assim, afirmou que a rede teria de adaptar o cardápio à medida que mais consumidores passassem a usar os medicamentos. Famílias com pelo menos uma pessoa usando os medicamentos gastaram menos em restaurantes de pizza, frango e hambúrgueres, segundo pesquisa compilada pela PwC. Os entrevistados disseram que os restaurantes não acompanharam suas novas necessidades, e mais de um terço afirmou querer porções menores. "É chocante para mim (...) a quantidade de restaurantes ou empresas que não estão prestando atenção ou acham que isso não afetará seus negócios", disse Rachel Royster, diretora de planejamento estratégico e inovação da consultoria Marlin Connections. Assim como outros usuários, Anne Butler, arquiteta de Chattanooga, nos EUA, que começou a tomar Wegovy no início de 2025, passou a comer menos fora e comprar menos lanches. Mas, ao perder 18 quilos, seus gastos aumentaram em outras áreas, incluindo suplementos, produtos para cabelo e roupas. Pessoas em testes clínicos dos medicamentos normalmente perderam entre 10% e 20% do peso corporal após 72 semanas. Isso representa redução significativa no tamanho das roupas e pode gerar até US$ 13 bilhões em gastos adicionais com roupas novas, segundo analistas da Bernstein Research. Muitos varejistas estão mudando a distribuição dos tamanhos de roupas à medida que os clientes emagrecem. A Stitch Fix disse que a demanda por calças femininas nos tamanhos 12 a 24 caiu nos últimos dois anos, enquanto aumentou nos tamanhos 0 a 10. Os clientes também estão pedindo "modelagens mais ajustadas". Para empresas voltadas a consumidores de tamanhos maiores, as mudanças estão acontecendo rapidamente. A Destination XL, que vende roupas para homens de tamanhos grandes, registrou queda nas vendas nos últimos trimestres, em parte porque muitos de seus clientes usam GLP-1. No trimestre encerrado em 1º de agosto, as vendas caíram 3,5% em relação ao ano anterior. "Nossa pesquisa indica que uma parcela significativa de nossa base de clientes atualmente usa medicamentos GLP-1", afirmou a empresa, acrescentando que estava introduzindo tamanhos menores. Os medicamentos, segundo a companhia, "estão contribuindo para mudanças estruturais na demanda dos consumidores dentro da categoria de roupas para homens de tamanhos grandes". 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Uso de rem�dios para emagrecer obriga ind�strias de alimentos e moda a se adaptar
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