É certa convenção de escrita evitar usar exclamações em excesso. Esqueça isso. Como é seu costume, José Simão, colunista da Folha, enche "Waly Simão É uma Voz Alta" desses sinais, que no livro parecem mostrar a surpresa que sente ao revisitar as próprias memórias dos anos do desbunde. O projeto surgiu quando o jornalista e editor Matinas Suzuki Jr. convidou Simão a escrever sobre a sua amizade de quase quatro décadas com o poeta Waly Salomão, morto em 2003, para sua editora, a Casa Matinas, em outubro do ano passado. Daí então, Simão acordava todo dia por volta das 5h30 e gastava um tempo tentando pescar episódios do passado em sua memória. "É um livro afetivo, feito das memórias do coração", afirma o escritor que, pouco afeito à burocracia das checagens, confiou nas suas lembranças. "Uma amiga minha diz que livro de lembranças é assim, você lembra até do que não aconteceu." Tudo a Ler Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias O resultado é um mosaico de momentos, principalmente dos anos 1970, época de desbunde, mas também de enfrentamento à ditadura militar. "A vida me deu esse privilégio de ser amigo do Waly —e nós fomos amigos nos anos 1970, que foram o mel da vida", diz. "Eram os anos da rebeldia e do amor livre. Agora, nós éramos cabeludos, e cabeludo era sinônimo de subversivo na época. A gente tinha medo quando passava o camburão." Foi no Rio de Janeiro que Simão conheceu o poeta de Jequié, no interior da Bahia, apresentado por Jorge Salomão, irmão de Waly e também poeta e compositor. Simão diz não lembrar ao certo em que momento os dois se tornaram tão próximos. Mas viraram um grude, como Simão escreve. Juntos, frequentavam o frisson das Dunas da Gal e de toda a efervescência cultural carioca e paulistana. Entre as festas em casarões, idas à praia, shows e passeios registrados no livro, aparece um elenco de peso, figurado por gente como os poetas Torquato Neto e Antonio Cícero, os músicos Gal Costa, Maria Bethânia e Luiz Melodia e o artista plástico Hélio Oiticica. Também está lá Marta Braga, viúva do poeta e hoje a grande preservadora de suas obras. "A única e extraordinária mulher que Waly teve por toda a sua vida", como está escrito. Carioca, economista, com cabelos "loiros como um trigal", elegante sem ser careta, ela conheceu Waly Salomão em Nova York. Com ele, teve dois filhos, Omar e Khalid. Segundo Simão, foi voltando de Oiticica que Waly compôs sua obra mais conhecida, a letra da canção "Vapor Barato". Os dois desciam a ladeira da Gávea, na região sul do Rio, quando o poeta começou: "Oh, sim, eu estou tão cansado". O amigo então teria sugerido a menção ao casaco, ao estilo dos de general que Waly estava vestindo. No mar, passava um navio, que também acabou entrando para os versos. "Admiro toda a obra do Waly, mas eu prefiro ele letrista", diz Simão. O Waly Salomão narrado por Simão vivia nesse estado de criação. Ligava de repente para os amigos e, sem dar nem oi, declamava seus mais novos versos, à espera de uma reação. "Ele era extremamente alegre, detestava bode", diz o amigo. "Tinha uma bocarra muito linda e falava muito alto, para todo mundo ouvir —porque tudo o que ele dizia, na realidade, era um manifesto." Apesar desse hábito perigoso de disparar manifestos em bom tom durante a ditadura militar, foi o porte de maconha que colocou o poeta atrás das grades por 18 dias, em janeiro e fevereiro de 1970, aos 26 anos. Trancado no pavilhão dois do presídio Carandiru, em São Paulo, escreveu seus "Apontamentos do Pav Dois", publicados em 1972 no livro "Me Segura Qu’Eu Vou Dar um Troço". "Saindo do Carandiru, ele foi direto para minha casa, sentou no chão e leu", diz Simão. Em certo episódio do livro, Simão relembra um episódio na casa de Kadije, irmã de Waly, em Jequié. Na época, o humorista namorava Antônio Salomão, sobrinho do amigo, e a mãe do rapaz não gostava do relacionamento. A mulher começou a criticar Simão e a influência dela sobre seu filho, ao que Waly confrontou: "Não admito que falem dele". "Era um amigo para sempre!", conclui o autor na passagem.
Tudo o que Waly Salom�o dizia era manifesto, diz Jos� Sim�o com livro sobre amigo
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