Tema de campanha, Nossa Senhora � celebrada em igrejas cat�licas no dia da elei��o

Tema de campanha, Nossa Senhora � celebrada em igrejas cat�licas no dia da elei��o

No início da manhã deste domingo (4), uma imagem de Nossa Senhora Aparecida foi erguida pelo padre Zacarias José de Carvalho Paiva em procissão de entrada no santuário da padroeira do país no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Pouco antes da entrada do pároco, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) divulgou nas redes sociais que, neste dia, confiava o Brasil "à proteção de Nossa Senhora Aparecida" e defendia um país "reconciliado, soberano, justo e fraterno". Em algumas igrejas, a novena da santa, celebrada no próximo dia 12, começou neste sábado (3). A imagem da mãe de Jesus de pele negra foi alvo de polêmicas nos dias que antecederam o primeiro turno. A controvérsia ganhou força após a jornalista Maria Cristina Fernandes, da Globonews, afirmar que haveria uma parcela de evangélicos mobilizando um projeto de lei para tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira, causando um movimento de reação na Igreja Católica. A informação rapidamente se espalhou e, nas redes sociais, foi transformada na notícia falsa de que Flávio Bolsonaro (PL) estava por trás do projeto. A ligação entre o filho do ex-presidente e a Comunidade das Nações, igreja fundada pelo bispo JB Carvalho, foi usada para sustentar a fake news. O religioso publicou livro, em 2001, em que criticava a devoção à Santa como padroeira. Flávio atribuiu a pessoas da CNBB a origem da notícia falsa, o que a entidade negou. Aliados do candidato afirmaram que ele sofreu um desgaste de imagem com o caso. O cenário encontrado pela reportagem da Folha em igrejas de São Paulo no dia da eleição foi de neutralidade, sem maiores referências aos candidatos nem nas roupas dos fiéis. Os padres não citaram as eleições de maneira direta durante as missas. Os mais progressistas citaram Nossa Senhora, enquanto os mais conservadores evitaram qualquer referência a temas ligados ao pleito. "Tinha que proibir a divulgação da notícia [sobre tirar Nossa Senhora do posto de padroeira do Brasil]", disse Andreia Oliveira, 56, na Basílica Menor de Sant’Ana. Segundo ela, a polêmica não influenciou seu voto. "Tanto é que votei nele [Flávio Bolsonaro]". Gustavo Oliveira, 18, que esteve na missa celebrada por Dom Gregório no Mosteiro de São Bento, não tirou o título de eleitor para essas eleições, mas afirmou que votaria nulo. "Quem está defendendo [a santa] não a defende porque gosta dela, e quem está atacando não está atacando porque é Nossa Senhora, mas porque quer atacar", disse. O padre Zacarias acreditar que religião e política não se misturam no púlpito da igreja. Segundo ele, a polêmica envolvendo a santa é só uma forma de disputar votos dos católicos às vésperas da eleição. Mas diz que se algum político levasse a sério tirar o título de padroeira do Brasil, seria "um tiro no pé". "Perderia 100% dos votos dos católicos". A devota da santa Walcleide Santos, 52, afirmou que a controvérsia confirmou um voto contrário a Flávio Bolsonaro: "Um absurdo." Na Paróquia São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca, o padre Júlio Lancellotti foi mais enfático na mensagem em defesa de Nossa Senhora Aparecida. Afirmou que ninguém pode tirar dela o título de padroeira. "Não podemos assistir aos ataques aos bispos e à devoção popular de Aparecida", disse o pároco, historicamente ligado a movimentos de esquerda. "Aqueles que não têm o que fazer, que ficam atacando Nossa Senhora Aparecida, é bom ir carpir café ou varrer a rua, que está precisando", afirmou. À Folha, o padre disse que não vê uso partidário da polêmica envolvendo Nossa Senhora pelos católicos. "Nós respeitamos todas as religiões e queremos ser respeitados também." Camisetas brancas e vermelhas em homenagem à santa com os dizeres "O Brasil tem mãe" foram vendidas no local. Moradores da Vila Prudente, bairro vizinho da Mooca, Tatiana, 51, e Renato Rocha, 52, compraram as camisetas com a imagem de Aparecida. Para a administradora, toda a situação envolvendo a Santa trouxe chateação aos católicos, ao mesmo tempo em que reforçou a fé. Em sua fala, o padre Lancellotti também celebrou o Dia de São Francisco de Assis, comemorado neste 4 de outubro. O santo é conhecido como protetor dos pobres e dos animais. Ele abençoou alguns cachorros de fiéis ao final da missa. Na Basílica Menor de Sant'Ana, no bairro de Santana, reduto bolsonarista, havia uma fileira com uma família usando blusas da seleção brasileira, tradicionalmente usadas por apoiadores do bolsonarismo. O padre não citou a votação durante a homilia (explicação das leituras bíblicas da missa). Na missa das 9h da Catedral da Sé, o padre Luiz Eduardo Baronto usou o sermão para falar sobre a polarização. "Não se deve transformar a política em uma paixão cega, nem fazer do adversário um inimigo", afirmou. "Não pense somente no seu bem, pense no bem de toda a nação e, desse modo, estará muito mais próximo do que Deus espera de nós."

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