Nascido nos anos 1960 na comunidade afro-americana dos Estados Unidos e retomado a partir de 2010 com o movimento "Black Lives Matter", o termo "woke" (particípio passado de "wake", acordar) foi incorporado ao Oxford English Dictionary em 2017 como consciência sobre temas sociais e diversas formas de discriminação. Mais recentemente, porém, a expressão foi transformada pela extrema direita norte-americana em senha de uma guerra cultural que expõe de maneira caricatural e distorcida a luta por direitos sociais —e, sobretudo, o das minorias. Sob Donald Trump, vigora a proibição do uso de termos que evoquem DEI ("diversity, equity and inclusion") em documentos governamentais. Mas foi pela porta dos fundos que woke se incorporou ao mundo econômico e financeiro. A partir de 2021, fundos de investimento, de pensão e outras modalidades de aplicações financeiras passaram a ser acusados de "wokismo" não apenas pelo radicalismo de detratores ocasionais, mas sobretudo por legisladores e governos estaduais, pelo poder federal e por organizações representativas de interesses corporativos, principalmente as ligadas aos combustíveis fósseis. A tomada do Partido Republicano pela extrema direita abriu caminho para o recuo de uma agenda cuja ambição era incluir os riscos socioambientais entre os fatores importantes que deveriam nortear o comportamento dos financiadores das empresas. ESG ("environment, social, governance") foi o emblema que marcou (de forma muito mais declaratória que efetiva, é verdade) o cuidado que os fundos de investimento e outros gestores de ativos deveriam ter com os riscos representados pelo avanço dos eventos climáticos extremos. O desabamento da ESG veio não porque os problemas aos quais ela apontava fossem negligenciáveis e sim por uma mobilização política extremista em defesa da ideia de que não cabe às empresas se envolverem em assuntos que não se refiram estritamente à busca de lucro para seus acionistas. Em 2022, Texas, Oklahoma, Dakota do Norte, Kentucky, Tennessee, Flórida e Virgínia Ocidental aprovaram leis para combater o que chamaram de "discriminação energética" e que proibiam todas as entidades desses estados a fazer negócios com empresas que tivessem retirado investimentos de companhias de combustíveis fósseis, prática conhecida pela expressão em inglês "divestment". A American Legislative Exchange Council propôs ao Congresso a Lei de Eliminação do Boicote Econômico ("Eliminate Economic Boycotts Act") com o objetivo de proteger não só a continuidade da exploração de combustíveis fósseis, mas também a mineração, as atividades florestais e a agricultura. Larry Fink, principal executivo da BlackRock, uma das três gigantes que (com a State Street e a Vanguard) detêm, juntas, mais de 80% dos ativos do "US index funds", recebeu uma carta de 19 procuradores-gerais de estados norte-americanos, acusando-o de conluio com outras organizações financeiras por aderirem aos objetivos de net zero, ou seja, emissões líquidas zero de gases de efeito estufa. É importante assinalar que, longe de se insurgirem contra esse movimento extremista, os gestores desses grupos financeiros não hesitaram em renunciar às causas que até então defendiam, como mostra artigo recente de Adam Harmes na prestigiosa Politics & Society. A ofensiva anti-ESG da extrema direita dos EUA visa retirar da sociedade o poder de impor limites socioambientais à atividade econômica. É esta a concepção que acompanha o Escudo das Américas, celebrado também pela extrema direita brasileira e ao qual o Brasil, com o resultado das eleições presidenciais, felizmente não vai aderir. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Quando o clima virou wokismo
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