"O maior legado da Preta Gil é a coragem que ela teve de encarar a vida sem preconceito e de ter sempre um olhar generoso", diz a diretora da série documental sobre a cantora que estreia na segunda (20). "Ela nunca se preocupou em seguir as normas ou defender nenhuma pauta. Ela era a pauta", segue, em entrevista feita por vídeo. Mini Kerti tem 56 anos e é uma das sócias da produtora carioca Conspiração desde 2003, onde fez uma carreira transitando entre cinema, televisão, documentários musicais e séries. Em 2019, lançou o documentário "Refavela 40", celebrando as quatro décadas do álbum de Gilberto Gil. Também contou as histórias de Jorge Mautner e do produtor André Midani, além da cantora paraense Dona Onete. "Eu sempre trabalhei com audiovisual, mas entrei no mercado de trabalho justamente quando o cinema acabou no Brasil, nos anos 1990. Aí fui me virar, trabalhei muito como produtora, assistente de direção, o que aparecia eu encarava E só tinha comercial e videoclipe na época, então fiz os dois muito", conta. A primeira pessoa que ousou escalar Kerti como diretora foi justamente Preta Gil, que, antes de virar cantora, criou a produtora Dueto Filmes, em 2000. A empresa era um braço da Dueto Produções, das irmãs Monique e Sylvia Gardenberg, que existe até hoje. Foram três anos intensos, fazendo comerciais pelo país e viajando muito para São Paulo, onde estavam as principais agências de publicidade." "Aí a Preta desistiu de tudo e resolveu gravar um disco, e eu fui para a Conspiração", conta. "A vida afasta as pessoas, mas não o afeto. Por um tempo a gente só se via em aniversários, casamentos, mas logo começamos a querer trabalhar juntas de novo", conta. A ideia era fazer um reality com o dia a dia da cantora para a HBO. Kerti começou a juntar todo o material de arquivo, vídeos caseiros, fotos, notícias, tudo que pudesse enriquecer o projeto. E Preta desistiu de novo, dessa vez para se dedicar a outros dois realities que fez com toda a família, "Em Casa com os Gil", de 2022, e "Viajando com os Gil", de 2023. "Quando ela morreu, fui ao velório e fiquei muito impressionada com o tamanho da Preta, ela virou uma pessoa importante mesmo, relevante, e foi tudo fruto de uma trajetória que ela construiu na unha, né?", lembra Mini Kerti. Foi a diretora Carolina Jabor, outra sócia na Conspiração e que também foi amiga de infância de Preta, que sugeriu a Kerti transformar a pesquisa em um documentário. O resultado, segundo ela, foi um processo atravessado pela emoção, pela memória e pela responsabilidade de preservar a complexidade de uma personagem que conhecia muito antes de ela se tornar símbolo de resistência e liberdade. No primeiro episódio, o único disponibilizado para a reportagem, o tema principal é como a morte de seu irmão mais velho, o baterista Pedro Gil, vítima de um acidente de carro aos 19 anos, em 1990, causou um abalo sísmico na família e marcou profundamente a vida de Preta. "A morte do Pedro foi uma tragédia e acho que brecou uma carreira artística que ia acontecer mais naturalmente para a Preta, que era muito ligada a ele, que era um super baterista, concorridíssimo", afirma a diretora. O segundo episódio aborda a carreira dela na publicidade, como dona de produtora, dirigindo videoclipes até o dia em que ela finalmente decide gravar o primeiro disco, na mesma época em que Gilberto Gil era ministro da Cultura. "E ela recebe uma bordoada por conta da capa do disco, em que aparece nua", diz Kerti. O terceiro episódio começa com Preta repensando a carreira de cantora e indo trabalhar com a empresária Marlene Mattos, na Band. "Ela vira uma celebridade, dá muitas entrevistas para a Marília Gabriela, vai muito no Jô Soares e tal, mas a carreira como cantora não se consolida", conta. "Ela só tem sucesso como intérprete quando começa a fazer uns shows pequenininhos aqui no Rio e isso vira uma coisa gigante entre o público LGBT e impulsiona ela a fazer o 'Bloco da Preta'". O último episódio mostra como o "Bloco da Preta" se transforma na expressão máxima do Carnaval carioca. Segundo a diretora, Preta ajudou a consolidar o formato de megabloco com trio elétrico no Rio. Depois da estreia de segunda (20) no Globoplay, em que o primeiro episódio estará disponível mesmo para os não assinantes do streaming, os outros três terão estreias semanais, até o dia 8 de agosto, data em que a cantora completaria 52 anos. O documentário de Mini Kerti faz parte de um projeto maior da TV Globo chamado "Quanto Mais Preta Melhor", uma homenagem do canal à artista. Nesta segunda (20), mesma data de estreia da série na Globoplay, a Globo exibe o filme documental "Preta - Eu Não Ando Só", um projeto que nasceu de um pedido da própria artista e que é focado em sua luta contra o câncer, construído com imagens de celular gravadas por ela mesma e por sua rede de apoio durante o tratamento. O filme tem direção de Sandra Kogut e roteiro de Renato Terra. Os três episódios seguintes de "Meu Nome é Preta" não foram mostrados antes da entrevista por uma razão bem simpática, até: não estão prontos ainda. "Tá tudo sendo feito na emoção. Comecei a trabalhar nessa série pelo fim, pela edição, aí depois que entendi como a história ia ser contada fui atrás das entrevistas de que precisava", conta Kerti. A obra tem participação especial de amigos como Carolina Dieckmmann, Regina Casé, Ivete Sangalo, Hugo Gloss, Alice Carvalho e Ana Carolina, e de familiares como Gilberto Gil, Sandra Gadelha, Fran Gil, Flora Gil, Bela Gil, Otávio Muller e Davi Moraes. "A Preta fazia mágica com o tempo, era uma coisa impressionante. Você vai ver quanta gente se sente muito íntima dela, ela se fazia presente na vida das pessoas, gostava de cuidar de todo mundo", diz. "Fora que todo mundo gosta de falar dela, é incrível isso, gente que nunca dá entrevista ou fala sobre a vida pessoal aceitou participar deste projeto", afirma. "A Preta me abriu todas as portas. E mais algumas." As entrevistas do primeiro episódio têm um tom de cartas de amor, dá até um aperto no peito de pensar que a principal interessada não está mais aqui para ver e ouvir. "Tô há dois meses chorando todo dia na ilha de edição", confessa a diretora, que se emociona quando fala na vontade de viver de Preta. "Ela era uma pessoa de desejo. Se interessava pelas coisas, pelas pessoas, mergulhava nelas, queria viver. Ela não pensava no que era esperado dela. Ela simplesmente era." LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. 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'Preta Gil me abriu todas as portas. E mais algumas', diz diretora de document�rio sobre a cantora
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