Um dos símbolos de Fernando de Noronha, o golfinho-rotador frequentou bem menos o arquipélago no ano passado. Os avistamentos na baía dos Golfinhos, principal refúgio diurno da espécie, caíram no último ano: a média de 252 animais registrados por dia em 2015 passou a 129, uma redução de 49%. Na outra extremidade do arquipélago, na baía de Santo Antônio e Entre Ilhas, a média era de 476 golfinhos por dia em 2015. O número caiu para 258 indivíduos em 2025, diminuição de 46%. Os dados são do Projeto Golfinho Rotador, que monitora a espécie que representa quase a totalidade dos golfinhos de Noronha. A observação e a contagem dos animais acontecem quase diariamente há 35 anos, a partir de pontos de observação nas baías dos Golfinhos e de Santo Antônio. A atividade é feita por pesquisadores integrantes do projeto, com o uso de binóculos, contador e planilha para sistematização dos dados. "Os golfinhos-rotadores passaram a frequentar menos as áreas tradicionalmente utilizadas para descanso, reprodução, cuidado dos filhotes e refúgio de tubarões em Fernando de Noronha", afirma o oceanógrafo José Martins da Silva Junior, um dos fundadores do projeto. Análises estatísticas mostram que entre 2004 e 2024 a presença dos animais no arquipélago tinha pequenas oscilações naturais, mas só 2025 teve uma ruptura consistente nesse padrão, chegando ao menor número registrado. Segundo os pesquisadores, isso indica uma alteração ecológica, que pode estar influenciando no comportamento ou saúde dos animais. Silva Junior afirma que nenhum fator isolado explica tamanha diferença nos avistamentos de 2025. "Nossas hipóteses mais fortes são as alterações provocadas pelas mudanças climáticas, o aumento da presença de predadores naturais, especialmente o tubarão-tigre, e a intensificação da atividade turística nas áreas utilizadas pelos golfinhos. Essas hipóteses não são excludentes e achamos que são complementares", diz ele. No ano passado, o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha recebeu mais de 140 mil turistas. O valor é um recorde desde 2015. Além disso, está acima do limite estabelecido no acordo de gestão compartilhada firmado entre os governos federal e estadual. O documento estabelece um limite mensal de 11 mil visitantes —que foi ultrapassado em 8 dos 12 meses de 2025. Já neste ano, até maio foram contabilizados 56,4 mil visitantes. O limite mensal foi ultrapassado em janeiro, fevereiro e março. A administração de Fernando de Noronha foi procurada no último dia 17, por email e mensagem de texto, para comentar o assunto, mas não se pronunciou até a publicação desta reportagem. Lilian Hangae, chefe do núcleo do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) dedicado ao arquipélago, diz que o impacto ambiental do excesso de visitantes é indireto, ao ultrapassar limites de serviços como abastecimento de água e tratamento de esgoto. "Quando o número de pessoas excede a capacidade desses serviços, aumenta o risco de sobrecarga, o que pode resultar em maior geração de poluição e, consequentemente, causar impactos ambientais", afirma. Ela acrescenta que o principal instrumento para controlar o número de turistas é a adequação da oferta de voos com destino ao arquipélago. Outra análise do projeto já tinha apontado que o comportamento dos golfinhos-rotadores estava sendo afetado pelo crescimento de passeios de barco ao redor de Noronha, que acabam interrompendo o momento de descanso, cópula e amamentação dos animais ao passar no meio dos grupos ou até mesmo pelo barulho dos motores. "O grande número de embarcações simultaneamente cercando os golfinhos aumenta o estresse dos animais, podendo causar alterações comportamentais e de saúde dos rotadores", afirma Silva Junior. Entre as consequências observadas estão alterações nos padrões de saltos dos golfinhos, forma de comunicação característica da espécie. "O estado de Pernambuco e o ICMBio devem tomar medidas drásticas para limitar o crescimento desordenado do turismo em Fernando de Noronha, controlando a construção de grandes pousadas, o aumento da frota de embarcações e canoas havaianas e o crescimento demográfico artificial de Noronha", diz o oceanógrafo. Na avaliação dele, é urgente a criação de normas mais severas de restrição ao turismo náutico e de mergulho, como limites de quantidade, velocidade e área de atuação e aproximação dos animais. Mudança climática e predadores Além do aumento do turismo, o aquecimento do oceano provocado pelas mudanças climáticas está alterando a velocidade e a direção das correntes marinhas, modificando a distribuição de presas dos grandes predadores. De acordo com o pesquisador, isso pode ter feito com que não valha mais a pena os golfinhos-rotadores saírem de longe para se alimentar ao redor do arquipélago. Esse pode ser o caso dos indivíduos que se alimentam na região da Cadeia de Montes Submarinos de Fernando de Noronha, região rica em biodiversidade, para a qual há um movimento buscando a criação de uma unidade de conservação. Outro fator que ajuda a explicar a menor presença dos golfinhos nos arredores do arquipélago é a maior ocorrência de tubarões-tigre na região —o que também poderia, hipoteticamente, ser uma consequência da redistribuição de grandes carnívoros marinhos. "Esse cenário pode fazer com que os golfinhos reduzam o tempo de permanência ou até deixem de utilizar a área como estratégia para evitar encontros com um de seus principais predadores naturais", explica Silva Junior. A explicação definitiva sobre a mudança observada em 2025 e a progressão da situação dependem de mais pesquisas e da continuidade da observação da espécie.
Presen�a de golfinhos em Fernando de Noronha cai quase pela metade em dez anos
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