Já está bastante claro que o papa Leão 14 se tornou um dos principais opositores da extrema direita global, a exemplo de Francisco, seu antecessor, que testemunhou o surgimento dessa onda e, apesar de muitos esforços, não foi capaz de impedir que ela crescesse. Nesta coluna, gostaria de refletir sobre o contexto histórico mais amplo da Igreja Católica, de meados do século 20 para cá, e explicar por que esse posicionamento, no fundo, não tem nada de inesperado. É muito provável que mesmo pontífices recentes mais conservadores, como Bento 16 e João Paulo 2º, reagissem de forma similar se ainda estivessem no trono de Pedro. (Adianto que um alto grau de simplificação será inevitável nas linhas a seguir, mas o quadro geral me parece relativamente claro e sólido.) A questão é que, apesar da retórica de continuidade inconsútil com o passado empregada às vezes por alguns setores do catolicismo, os anos 1960 marcam uma ruptura verdadeira no papel geopolítico da Igreja, ao menos no que diz respeito à sua alta hierarquia. Desse ponto de vista relativamente limitado, a grande reunião de prelados católicos do Concílio Vaticano 2º (1962-1965) de fato tem efeitos revolucionários. O contraste entre esse período mais recente e a visão da Santa Sé ao longo do século 19 e da primeira metade do século 20 é muito significativo. A questão é que, nessa fase anterior, o papado e a hierarquia católica como um todo tiveram sérias dificuldades para fazer as pazes com a ascensão dos movimentos republicanos e democráticos (e, mais tarde, também com o surgimento do socialismo). Frequentemente anticlericais, dispostos a arrancar da Igreja toda a sua influência política, econômica e cultural (e, na Itália, o território considerável do qual o próprio papa era monarca), esses movimentos levaram a Igreja a uma posição quase instintivamente reacionária, no sentido etimológico da palavra –ou seja, a de liderar a reação contra tais mudanças. Isso significa que ser católico, do ponto de vista político, muitas vezes era sinônimo de ser monarquista, contrário à separação entre Igreja e Estado e no mínimo muito desconfiado em relação à liberdade de expressão, de religião e de consciência. As diferentes encarnações do fascismo no começo do século 20 –a começar pela Itália de Mussolini, mas também em exemplos mais obscuros, como a Croácia e a Eslováquia– frequentemente culminaram num casamento de conveniência com o catolicismo. Havia uma promessa de retorno à suposta ordem e harmonia do passado que, em linhas gerais, parecia fazer mais sentido, do ponto de vista da hierarquia católica, do que a democracia liberal. A derrota decisiva do nazismo e do fascismo no fim da Segunda Guerra Mundial, porém, assim como a percepção cada vez mais clara das atrocidades que eram a consequência lógica desses regimes, fizeram com que uma parcela importante da Igreja repudiasse de forma decisiva qualquer possibilidade de aliança com esse espectro político. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha A transformação não se consolidou de forma automática, mas ela provavelmente foi reforçada pelo crescimento da ameaça nuclear e pelo fim do longo papado conservador de Pio 12 (que foi papa de 1939 e 1958). Os sucessores de Pio 12 e a maior parte do alto clero abraçariam um papel muito diferente para a Igreja global. Aproveitaram a secular tradição diplomática da sé petrina para transformá-la numa campeã do multilateralismo, das negociações de paz, do combate à desigualdade e dos direitos humanos (mesmo com a ressalva, neste último caso, de que a Igreja continuaria a se opor ao que muitas nações passaram a enxergar como direitos reprodutivos e sexuais, em especial o aborto e os métodos contraceptivos). Acabei de usar a expressão "Igreja global", e esse é outro elemento um bocado significativo. O centro de gravidade do catolicismo tem se deslocado cada vez mais para longe da Europa, primeiro para a América Latina e, cada vez mais, para a África e a Ásia. Para a hierarquia católica, a defesa de imigrantes dessas regiões é uma questão de justiça, mas também de se manter ao lado de seu contingente mais estratégico de fiéis. Tudo isso explica porque Francisco e Leão 14 não teriam como aceitar passivamente a influência do movimento ultranacionalista, belicoso e anti-imigração formado pelo trumpismo e seus filhotes mundo afora, como o bolsonarismo. Fazer as pazes com a atual extrema direita seria jogar fora todos os esforços geopolíticos da Santa Sé nos últimos 60 anos. Isso não significa, é claro, que uma minoria significativa do clero, incluindo alguns altos hierarcas, não simpatize com o projeto extremista. Mas seria preciso uma reviravolta tremenda para que assumissem o controle da Igreja. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Por que papas se tornaram grandes opositores da extrema direita
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