Pesquisadores de Alzheimer analisam um dado incomum: o formato da cabe�a

Pesquisadores de Alzheimer analisam um dado incomum: o formato da cabe�a

As doenças neurodegenerativas, que roubam das pessoas a capacidade de pensar, lembrar e formar a própria identidade, muitas vezes começam, com precisão milimétrica, em partes específicas do cérebro. Esse é um dos maiores mistérios das doenças cerebrais: por que elas começam justamente onde começam? Os neurocientistas chamam de "vulnerabilidade seletiva" esse fenômeno em que uma doença danifica determinadas áreas e células do cérebro, enquanto outras permanecem intactas. Descobrir por que isso acontece —e como prevenir ou interromper o processo— é um dos grandes objetivos da área. É o caso do Alzheimer, doença que normalmente se instala anos antes de a memória começar a se desfazer, quando emaranhados de uma proteína chamada tau começam a se acumular e células morrem em uma estrutura próxima à base do cérebro chamada córtex entorrinal. Em um estudo preliminar, cientistas descobriram que o acúmulo da proteína tau nessa área de origem só estava associado à progressão da doença de Alzheimer quando a região também se encontrava próxima à borda da incisura tentorial, uma abertura no revestimento externo do cérebro. Essa correlação suscita uma série de perguntas pouco convencionais: será que os repetidos esforços mecânicos da vida cotidiana, combinados ao efeito da gravidade ao longo de toda uma vida, poderiam criar pontos de pressão no cérebro? E será que esse desgaste biomecânico poderia influenciar o risco de uma pessoa desenvolver Alzheimer? Como consequência, diferenças na anatomia da cabeça poderiam ajudar a explicar por que algumas pessoas desenvolvem demência e outras não? "Isso realmente começou em conversas reservadas nos círculos da neuropatologia", diz John Crary, neuropatologista da Escola de Medicina Icahn do Mount Sinai, em Nova York, que se associou a Frank Provenzano, bioengenheiro especializado em neuroimagem da Universidade Columbia, para testar a ideia em uma pequena amostra de 47 pacientes com comprometimento cognitivo leve. O artigo dos dois foi publicado na revista Alzheimer’s & Dementia. A ideia é provocativa —sobretudo porque traz um leve eco de certas teorias do século 19, há muito desacreditadas, quando o formato da cabeça era usado para prever a personalidade e justificar o racismo. Mas cientistas que não participaram da pesquisa disseram que a abordagem é intrigante, embora as evidências sejam preliminares e sugestivas e precisem ser testadas com rigor. Eles elogiaram o estudo por introduzir uma nova ideia no debate científico. "É realmente uma abordagem fora da caixa, e isso me agrada", diz Gil Rabinovici, neurologista da Universidade da Califórnia em San Francisco, que não participou do estudo e alertou que são necessárias mais evidências para sustentar a hipótese de maneira convincente. "Acho que deveríamos pensar mais fora da caixa quando se trata de compreender os riscos da neurodegeneração." Pontos de pressão no cérebro? Grande parte do que sabemos sobre o cérebro humano vem de autópsias, depois que o órgão é retirado do crânio. Em outras palavras, muitas vezes ele foi mapeado totalmente fora de contexto. A relação entre o crânio e o cérebro, um órgão macio e frágil, é estudada em casos de traumatismo craniano, mas permanece em grande parte inexplorada em muitas doenças neurodegenerativas. Foi justamente essa relação que despertou o interesse de Crary, responsável por um banco de cérebros. Crary havia estudado uma forma de neurodegeneração causada por traumatismos cranianos repetidos, a encefalopatia traumática crônica, ou ETC. A ETC mostrou aos cientistas que forças mecânicas podem, de fato, desencadear o acúmulo de emaranhados tóxicos da proteína tau. Crary também havia lido um artigo científico de 1958 que apresentava um conjunto incomum de dados de autópsias nas quais uma parte do crânio havia sido removida. O estudo despertou sua curiosidade porque mostrava uma grande variação no tamanho de uma abertura no centro do cérebro chamada incisura tentorial, a borda de uma área de passagem entre dois compartimentos. Após uma lesão aguda ou de um acidente vascular cerebral, o tecido cerebral pode inchar e pressionar a borda rígida da incisura tentorial. Crary se perguntou se os efeitos menores e cumulativos de uma vida inteira de movimentos poderiam produzir algo semelhante. "Algumas pessoas têm incisuras grandes; outras, pequenas; algumas, compridas; outras, curtas", diz. "E, enquanto eu observava isso, pensei que poderia ser um fator de risco." Medindo a distância Para fazer uma primeira tentativa de responder se a anatomia cerebral poderia ajudar a explicar o risco de Alzheimer, os pesquisadores analisaram exames médicos de 47 pessoas com comprometimento cognitivo leve e emaranhados de tau na área vulnerável. Eles mediram a distância entre a borda rígida da incisura tentorial e o córtex entorrinal. Essa distância não permitiu prever a quantidade de emaranhados de tau no cérebro. A arquitetura cerebral, por si só, tampouco indicou quem desenvolveria Alzheimer. Os pesquisadores constataram, porém, que a presença de tau na região de risco só estava associada ao desenvolvimento de demência nos três anos seguintes entre pessoas com um espaço estreito entre a incisura e o córtex entorrinal. Os dois cientistas reconhecem que seu pequeno estudo é apenas um ponto de partida, não uma tese comprovada. Ainda assim, esperam que o trabalho estimule novas pesquisas. Há muito tempo, o campo do Alzheimer se concentra em aglomerados tóxicos de uma proteína chamada beta-amiloide e, mais recentemente, nos emaranhados de tau. Vários medicamentos que removem a proteína amiloide foram aprovados, mas produziram benefícios limitados para os pacientes. David Attwell, neurocientista da University College London, escreveu por e-mail que o artigo de Crary e Provenzano mostrou uma "correlação intrigante" e levantou muitas outras questões que poderiam ser estudadas. Segundo ele, é fácil especular sobre as possíveis maneiras pelas quais os esforços mecânicos cotidianos poderiam contribuir para o risco de Alzheimer. Por exemplo, células cerebrais chamadas micróglias, que eliminam a proteína beta-amiloide do cérebro, são sensíveis ao estiramento. Mas ele, assim como outros cientistas, afirmou que pode haver outros fatores correlacionados à distância entre as duas regiões cerebrais e que também poderiam desempenhar algum papel. As ideias propostas por Crary e Provenzano ainda precisam ser testadas para verificar se de fato se confirmam. Mesmo que isso não aconteça, porém, elas ainda podem gerar outras ideias ou observações que abram novos caminhos de pesquisa. Cuide-se Ciência, hábitos e prevenção numa newsletter para a sua saúde e bem-estar

Original Source

Read the full article at Www1 →

KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.