José Guedes, meu melhor amigo, partiu três semanas antes de fazer 99 anos, no domingo de Páscoa de 2022. Até hoje choro de saudade. Saudade do telefonema dele, todos os dias, às 18h30. Saudade de ele recitar para mim os versos de "Os Lusíadas". Saudade do nosso joguinho de palavras. Saudade dos seus conselhos. Saudade das suas risadas gostosas. Saudade de quando ele me chamava de "minha filha". Saudade de ouvir Guedes cantar "Como é grande o meu amor por você". Choro todas as vezes que lembro do meu melhor amigo. Minhas lágrimas não são apenas resultado da saudade insuportável, mas o luto por perder o vínculo emocional mais seguro que tive em toda a minha vida. Cresci aprendendo que o mundo era um lugar de violência, perigo e ameaça. Até conhecer meu melhor amigo, em março de 2015, eu não sabia que era possível viver uma relação sem medo, sem violência e sem gritos. Não sabia também a diferença que faz encontrar alguém diante de quem não precisava esconder a minha dor. Com Guedes descobri tardiamente um vínculo seguro, leve e tranquilo. Um vínculo que nunca me deixou em estado de alerta. Choro porque perdi o amigo que me escutou do jeito que eu precisava ser escutada, que me abraçou do jeito que eu precisava ser abraçada, que me cuidou do jeito que eu precisava ser cuidada. Meu melhor amigo me deu todo o carinho, colo e amparo que não tive na infância em meio a gritos, espancamentos e xingamentos. Ele me deu tudo o que eu mais precisava. E ainda preciso. Só com ele me senti completamente protegida, segura e cuidada. Só com ele nunca me senti sozinha, rejeitada, ignorada. Nos meus momentos de tristeza por me sentir magoada com alguém, meu amigo dizia: "quer que eu fale com ele?" Nos meus momentos de depressão, ele cantava para mim. Nos meus momentos de pânico, ele dizia com firmeza: "Tem que ter coragem, Mirian, coragem. Você vai sim!". Nos meus momentos de solidão, ele me ligava, todos os dias. Não havia "hora errada" para o meu amigo. Nunca precisei silenciar minha tristeza com medo de incomodar. Ele brincava: "como você é exagerada!", porque eu sempre dizia que ele era meu anjo protetor. Nunca precisei pisar em ovos com medo de ele ficar irritado, zangado, distante ou ocupado demais para mim. Eu tinha uma certeza: eu podia confiar no amor que ele sentia por mim. E ele podia confiar no meu. Todas Discussões, notícias e reflexões pensadas para mulheres Nunca, nem um só dia, ele deixou de me ligar. Mesmo no dia em que estava com dor de dente, ele ligou. Perguntei: "Você não prefere deixar para conversar amanhã?" Foi o único dia em que ele respondeu: "Prefiro, minha filha". A nossa rotina me dava segurança: eu nunca tive dúvida de que ele iria me atender se eu ligasse ou precisasse de um conselho. Eu confiava nele de um jeito que nunca consegui confiar em ninguém. Duas horas antes de ter um infarto, ele me ligou e cantou um sambinha que nunca havia cantado antes: "É com esse que eu vou sambar até cair no chão… ". Ele me cuidou e me protegeu até o fim. Até hoje estou vivendo o luto de não ter mais o meu melhor amigo dando suas risadas gostosas. Não perdi apenas o meu melhor amigo. Perdi a mais linda experiência de confiança, proteção e cuidado que tive na vida. Pela primeira vez na vida, eu tive a certeza de ser amada incondicionalmente. Essa certeza é, para mim, a definição mais bonita de segurança emocional. Quando perdi meu melhor amigo, perdi também a sensação de que existia um lugar seguro para eu poder existir. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Perdi meu melhor amigo e a certeza de ter um lugar seguro no mundo
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