O hino composto por dom Pedro 1� que Lula transformou em can��o da vit�ria

O hino composto por dom Pedro 1� que Lula transformou em can��o da vit�ria

"Já raiou a liberdade no horizonte do Brasil", cantou uma multidão eufórica na avenida Paulista neste domingo (25/10), após Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pedir para que fosse reproduzido o Hino da Independência durante a comemoração por sua reeleição à presidência. Trata-se de uma das canções patrióticas oficiais do país, justamente a que exalta a força do povo nacional que não deve ser submisso a interesses estrangeiros e, ao mesmo tempo, celebra o alvorecer de uma liberdade. Foi uma escolha simbólica de Lula, que durante sua campanha exaltou a soberania brasileira. O Hino da Independência tem uma curiosa história porque sua criação está ligada diretamente à biografia daquele que proclamou o Brasil independente de Portugal: dom Pedro 1º (1798-1834), o nobre lusitano que se tornou o primeiro chefe de Estado do país livre. Chamada originalmente de Hino Constitucional Brasiliense, a música teve a letra escrita pelo poeta e jornalista Evaristo da Veiga (1799-1837) em agosto de 1822, ou seja, semanas antes do Sete de Setembro que ficaria eternizado como data magna do país. A melodia foi criada pelo compositor erudito luso-brasileiro Marcos Portugal (1762-1830). Em 1824, quando tomou conhecimento do hino, o próprio imperador dom Pedro decidiu compor para os versos de Veiga uma nova canção. "Ele tinha conhecimentos musicais e se apropriou da letra de Veiga para, a partir dela, criar uma melodia. E o hino ganhou força no período do seu reinado", afirma o historiador Victor Missiato, pesquisador no Instituto Mackenzie. De acordo com o historiador Paulo Henrique Martinez, professor na Universidade Estadual Paulista (Unesp), o imperador fez da sua música um hino de "exaltação da nacionalidade". Em 1824, a obra foi rebatizada como Hino Imperial e Constitucional. "A exaltação da alma, de inspiração romântica e europeia, ganha expressão nos versos que compõem o hino", completa o historiador. Mais que diletante, o monarca tinha traquejo com a arte. Autor do livro "D. Pedro I: A História Não Contada", o biógrafo Paulo Rezzutti conta que o imperador do Brasil era multi-instrumentista e foi autor de inúmeras obras. "Foi um músico profícuo, que deixou várias composições, desde sacras, litúrgicas, até canções patrióticas", comenta o biógrafo. É de dom Pedro a autoria do chamado Hino da Carta, que ele compôs em 1820 e que foi hino oficial do Reino de Portugal de 1834 a 1910. "Quando soube que ia se casar com a Leopoldina, ele chegou a compor valsas, que era um gênero novo ainda não chegado ao Brasil", conta Rezzutti, lembrando que a valsa era então uma moda austríaca, terra de origem daquela que se tornaria a primeira mulher de Pedro. A versão romantizada Mais tarde, propagou-se a versão romantizada —e sem comprovação documental— de que o imperador havia composto o hino no mesmíssimo dia em que havia proclamado a independência às margens do rio Ipiranga. Por essa versão, disseminada sobretudo a partir de 1909 graças ao advogado, jornalista e escritor Eugênio Egas (1863-1956), a música teria sido partiturada às pressas naquela data pelo então organista da antiga Catedral de São Paulo, o músico André da Silva Gomes (1752-1844), para que fosse executada ainda na mesma noite. Não são conhecidos, contudo, documentos de época que referendem essa história e tampouco há qualquer menção que uma apresentação musical do tipo tenha acontecido em setembro de 1822 em São Paulo. Com contornos míticos, essa narrativa acabou sendo consolidada nas comemorações do primeiro centenário da Independência, em 1922 —quando o próprio hino, em desuso, acabou resgatado. De histórico mesmo resta a informação de que a canção era considerada o hino oficial do país nos tempos da monarquia. Martinez explica que a canção assinada por dom Pedro ficou associada "aos tempos do Império". Os autores originais Veiga, o autor da letra, foi um escritor nascido no Rio que, filho de um livreiro português, é considerado um dos precursores do romantismo no Brasil. Seu pai chegou a morar um tempo em Minas Gerais e, acredita-se, tenha se aproximado dos chamados inconfidentes que conspiravam contra o reino português. Já o compositor da primeira melodia, Marcos Portugal, nasceu em Lisboa e fez carreira na Itália. Quando a família real portuguesa já vivia no Rio de Janeiro, depois da transferência da corte ocorrida em 1808, ele foi convocado como um dos músicos a atuar junto à nobreza no Rio. Há pesquisas que indicam que a canção, nessa versão original de Veiga e Portugal, tenha alcançado alta repercussão na sociedade carioca logo nas semanas seguintes à publicação.

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