Não é fácil vacinar as aves raras da Nova Zelândia. Às vezes, o trabalho envolve uma viagem a uma ilha remota ou ao coração de uma floresta. Depois, os pesquisadores precisam localizar a ave, que pode estar camuflada no chão ou no alto de uma árvore. Em seguida, precisam capturá-la e aplicar a vacina. E, alguns meses mais tarde, fazem tudo de novo, quando a ave precisa receber a dose de reforço. Mas, para os funcionários do Departamento de Conservação da Nova Zelândia, trata-se de proteger a fauna endêmica ameaçada do país contra a letal gripe aviária H5N1. As autoridades neozelandesas sabiam que era apenas uma questão de tempo até que a doença chegasse ao país. Assim que o primeiro caso foi detectado na Austrália, em junho, funcionários do departamento começaram a vacinar preventivamente até 300 das aves mais raras e vulneráveis do país —entre elas o kākāpō, o papagaio mais pesado do mundo, do qual restam apenas 235 exemplares. Poucas semanas depois, em julho, a Nova Zelândia confirmou dois casos de H5N1 em aves silvestres em Wellington, a capital. Ash Murphy, gerente de biossegurança do departamento, explica que algumas espécies endêmicas (encontradas naturalmente em apenas um lugar da Terra) já tinham populações reduzidas. "Qualquer nova ameaça, como a gripe aviária, pode ter um impacto bastante devastador", diz. Cinco espécies prioritárias estão sendo vacinadas primeiro. Restam apenas alguns indivíduos de cada uma dessas espécies em programas de reprodução em cativeiro ou na natureza. O governo espera concluir essa fase o mais rápido possível antes de passar a outras espécies. O trabalho de vacinação pode ser difícil. O kākāpō é encontrado em ilhas no extremo sul do país. Guardas florestais, com o auxílio de rastreadores, precisam localizar a ave —que não voa, mas consegue subir até o alto das árvores usando suas garras fortes— e capturá-la. Eles também podem aproveitar a oportunidade para realizar exames de saúde, afirma Murphy. Até agora, as autoridades vacinaram cerca de 196 aves. Quando essa fase for concluída, outras 23 espécies serão vacinadas —incluindo kiwis raros e o kea, uma ave brincalhona e inteligente que é o único papagaio alpino do mundo. Planeta em Transe Uma newsletter com o que você precisa saber sobre mudanças climáticas Muitas aves da Nova Zelândia não voam, uma característica que desenvolveram porque o país permaneceu isolado por milhões de anos e não tinha predadores terrestres até que eles fossem introduzidos pelos seres humanos. Como resultado, essas aves evoluíram para ocupar nichos deixados pelos mamíferos. As aves têm um lugar especial no coração dos neozelandeses, que chamam a si próprios de "kiwis". A gripe aviária varreu a Europa, a África e a Ásia em 2020. No fim de 2021, apareceu na América do Norte, avançando rapidamente pelo Canadá e pelos Estados Unidos. No segundo semestre de 2022, o vírus surgiu na América do Sul e, em poucos meses, espalhou-se até o extremo do continente. Milhares de aves silvestres e mamíferos, entre eles raposas, gatos, leões-marinhos e golfinhos, morreram após contrair a doença. Também houve casos raros em seres humanos depois de contato próximo com aves. É difícil conter a gripe aviária, sobretudo quando aves migratórias silvestres ou outros animais levam o vírus consigo ao viajar pelo mundo. "Não é possível bloquear rotas migratórias da mesma forma que se pode interromper o comércio de animais ou produtos de origem animal, ou ainda o deslocamento de pessoas", diz Nigel French, renomado professor de epidemiologia de doenças infecciosas da Universidade Massey, na Nova Zelândia. "Portanto, isso representa algo muito diferente de tudo o que já vimos." Mas os cientistas aprenderam com outros surtos de doenças, incluindo a pandemia de coronavírus, acrescenta o pesquisador. Como resultado, as práticas básicas de controle de doenças melhoraram, incluindo barreiras de biossegurança, restrições de deslocamento e sequenciamento genômico para rastrear a origem e a disseminação dos patógenos. As vacinas também se tornaram mais eficazes. Na Reserva de Vida Selvagem Willowbank, em Christchurch, os funcionários vêm se preparando para a gripe aviária há vários anos, afirma em comunicado a gerente de operações de fauna silvestre da instituição, Laura Ashton. As medidas incluem a instalação de telas de sombreamento sobre determinados habitats para afastar aves silvestres; a adaptação de comedouros e bebedouros para reduzir o acesso de animais invasores; e protocolos de biossegurança mais rigorosos para os tratadores. Até agora, quatro takahēs —aves que não voam e das quais restam apenas 500 exemplares— foram vacinados na reserva. As autoridades afirmaram que conseguiriam erradicar a gripe aviária, mas que seria preciso aprender a conviver com ela. Na semana passada, a Austrália confirmou as primeiras mortes em massa de animais silvestres causadas pela doença: garajau-de-bico-amarelo encontrados em uma ilha ao largo da costa da Austrália Meridional. As autoridades alertaram que mais animais silvestres serão afetados. Murphy afirma estar "bastante confiante" no plano da Nova Zelândia, mas acrescenta que ainda havia incerteza sobre como a doença afetaria espécies valiosas e endêmicas. "Agora é preciso esperar para ver o que acontece", diz.
Nova Zel�ndia corre para vacinar papagaio mais gordo do mundo e outras esp�cies raras contra gripe avi�ria
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