Certa vez, Wilson Ney perguntou a um menino mestre-sala qual samba do Carnaval de Porto Alegre conhecia. A resposta emocionou o músico, que ouviu uma composição que havia criado em 1972. Em lágrimas, percebeu naquele gurizinho, que mal tinha oito anos, que sua obra era transmitida de geração em geração. Enquanto tantas famílias fugiam do calor úmido de Porto Alegre no verão, a praia da família de Wilson estava no Carnaval. E assim foi por décadas, como compositor e diretor de harmonia em diferentes agremiações e como comentarista da rádio Gaúcha, uma das principais do Rio Grande do Sul. Foram cerca de 500 canções ao longo da vida, segundo estimativas do próprio artista. A lista inclui alguns dos sambas mais tradicionais (e vencedores) do Carnaval porto-alegrense e obras gravadas por grandes nomes da música nacional, como Elza Soares ("Lá vem você"), Leci Brandão ("Marca-passo") e Neguinho da Beija-Flor ("Poxa vida" e "Recomeçar"). Por muitos, era chamado de poeta. Embora mais associado ao samba, Wilson gostava de compor especialmente canções românticas. O processo começava um pouco do nada, e não era abandonado até a conclusão. Ele até sonhava com novas melodias. Por isso, mantinha um gravador por perto. Em paralelo, trabalhou nos Correios. Primeiro, como carteiro e, depois, no atendimento ao público, aposentando-se em 2012. Nessas funções, igualmente reproduzia a dedicação e exigência que conferia à música. "Ele era 'chato', cri-cri com horário, muito responsável, perfeccionista", descreve Veridiana Prado, uma das filhas do artista. Para ela, o pai não tinha total ciência da própria importância e do tamanho do legado que deixou. "Ele achava que [suas composições] eram sambinhas, coisas poucas. E aí estão: na boca do povo até hoje." Também era colorado doente, como descreve a filha. E essa paixão era igualmente transmitida na música, como em canção na qual exaltava os feitos do jogador Escurinho —"marque ele, pois sua cabeçada será fatal" —, atacante conhecido pelos gols decisivos nos jogos do Internacional dos anos 1970. Tempos depois, compôs uma música com o próprio artilheiro, gravada em disco. Filho de um sapateiro e de uma dona de casa, Wilson aprendeu a tocar violão aos 13 anos, com um dos cinco irmãos. Logo depois, passou a fazer música profissional. Em seis décadas de música, parte da obra de Wilson se perdeu. Muito tem sido reunido nos últimos anos por Veridiana e mais envolvidos na preservação desse legado, contudo. Uma exposição está em preparo para setembro. Wilson Ney dos Santos morreu aos 79 anos em 13 de julho, em Tramandaí (RS), com infecção pulmonar após pneumonia. Deixou cinco filhos, nove netos e a esposa, Maria. Em nota, a Uespa (União das Escolas de Samba de Porto Alegre) disse que o artista fez história. "Wilson Ney parte, mas fica. Fica nas letras, na memória das escolas e no coração do carnaval gaúcho." A Imperadores do Samba, sua escola de coração, agradeceu ao mestre pelos versos: "que seu samba siga ecoando para sempre". coluna.obituario@grupofolha.com.br Veja os anúncios de mortes Veja os anúncios de missas
Mortes: Poeta do carnaval, comp�s 500 can��es e tirava inspira��o at� dos sonhos
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