Mortes: Dominou as palavras na poesia, na m�sica e na advocacia

Mortes: Dominou as palavras na poesia, na m�sica e na advocacia

Quem ouve "Me Abraça e Me Beija", clássico da música baiana, talvez não imagine a história dos versos. O compositor da canção, gravada originalmente por Margareth Menezes e Jimmy Cliff em 1991, gostava de revelá-la. Gileno Felix acabava de se recuperar de um acidente grave quando se sentou sob uma árvore com Lazzo Matumbi. Juntos escreveram a obra que é dedicada ao seu grande amor, Vandalice. Outra parceria com Lazzo foi "Atrás do Pôr do Sol". Gil, como era chamado pelos íntimos, estava no Carnaval quando começou a sentir a melodia. Contava que era algo diferente do que dominava a folia. Os primeiros versos foram anotados em um guardanapo. Concluiu a música durante uma travessia pela Baía de Todos-os-Santos rumo a Salinas da Margarida (BA). A pequena cidade do Recôncavo Baiano era seu refúgio, onde nasceu em 1952 e para onde voltava sempre. Lá, começou a escrever seus primeiros versos, incentivado pelo pai e pelo irmão mais velho. Foi morar em Salvador aos nove anos. Estudou na Escola Parque, idealizada por Anísio Teixeira, onde aumentou seu interesse pela arte. No Colégio Central, participou de festivais estudantis de música e ingressou no coral da juventude do Mosteiro de São Bento, onde atuou em defesa das pessoas em situação de vulnerabilidade. Conviveu com grupos comprometidos com a democracia e tornou-se ativista contra a ditadura militar. Formou-se em direito na UFBA (Universidade Federal da Bahia). Exerceu advocacia nas áreas cível e criminal em todo o estado. "Contribuiu para que centenas de famílias conquistassem o direito à moradia", afirma Antônio Menezes Filho, 75, presidente do Instituto dos Advogados da Bahia. Paralelo à carreira jurídica, foi músico profissional. Escreveu poesias, contos e romances, alguns publicados e muitos inéditos. Dizia sentir necessidade diária de escrever para dar vazão aos sentimentos e emoções. "Escrevia em qualquer lugar. Nos canhotos de talões de cheque, em guardanapos ou até mesmo durante a redação de peças jurídicas", diz a mulher, Vandalice Pedreira, 64. Nas artes plásticas, produzia pinturas que evocavam a infância praieira e religiosidades. Esteve em cartaz no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab) com a exposição "Ancestralidades". Era torcedor fervoroso do Bahia. Gostava de praia, barzinhos e conversas longas. "Era bem-humorado, gostava de brincar e dificilmente deixava de oferecer um sorriso a quem encontrava", diz a filha Aiace, 37. Gileno teve câncer de próstata, descoberto em 2012. A doença de Parkinson, diagnosticada um ano depois, comprometeu sua saúde. Nos últimos meses, já não conseguia mais escrever. Começou a gravar áudios com poemas. Morreu aos 73 anos após um infarto no dia 20 de julho. Deixa a mulher, cinco filhos e oito netos. coluna.obituario@grupofolha.com.br Veja os anúncios de mortes Veja os anúncios de missas

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