Na longa história das telenovelas no Brasil, o melodrama sempre foi visto como um artifício apelativo, mas necessário, destinado a amarrar o espectador diante da televisão. Talvez por herança das novelas mexicanas do rádio, muitos autores brasileiros fizeram fama contando histórias maniqueístas, emocionalmente intensas, com enredos mirabolantes, diálogos fortes, dramas amorosos dilacerantes, injustiças de todos os tipos e reviravoltas sem pé nem cabeça. Até hoje, com maior ou menor intensidade, com mais ou menos pudor, quase todos os autores da Globo ainda abraçam o melodrama em suas tramas. Mesmo os mais preocupados com o realismo das histórias frequentemente fazem concessões ao gênero. Muitos autores defendem que não é possível escrever novelas sem recorrer ao melodrama. É célebre o caso ocorrido durante "Sinal de Alerta" (1978), novela escrita por Dias Gomes com o poeta Ferreira Gullar. Houve uma divergência sobre o destino de uma personagem, uma líder operária casada. Dias queria que ela tivesse um caso com um colega de fábrica. Gullar argumentou que a solução seria implausível. Janete Clair, mulher de Dias, entrou na conversa: "Não é plausível, mas ia ser lindo", disse. "Mandem o realismo à merda. Ela deve ter o caso e, além de tudo, ficar grávida. O público vai adorar", completou. Quase 50 anos depois, o melodrama mudou de status. Deixou de ser visto como algo discutível e passou a ser tratado como um recurso indispensável. No recém-lançado "Autoria e Gênero na Teledramaturgia Brasileira" (editora da PUC Rio), Tatiana Siciliano e Francisco Malta questionam nove autores sobre a atualidade e o futuro das novelas —e a maioria fala positivamente sobre o apelo ao exagero. Ainda que tenha dado muito espaço a pautas realistas e progressistas em suas novelas, Ricardo Linhares observa: "Novela é entretenimento. Novela tem que ter uma coisa que fuja da realidade. Tem que ter um dado de exagero. A novela é o antirracional". A discussão no livro avança ao registrar que plataformas de streaming produzindo no Brasil se lambuzaram de melodrama em séries recentes, como "Pedaço de Mim", da Netflix, e "Beleza Fatal", da HBO Max. Rosane Svartman observa: "Os seriados contemporâneos estão impregnados de ingredientes do melodrama. E, ao mesmo tempo, as telenovelas também vêm incorporando elementos da estrutura seriada". Ela vai além: "Acredito que o melodrama esteja em alta. Talvez estejamos vivendo o auge dessa linguagem. O melodrama se mostra mais vivo e versátil do que nunca". Dois dramas jurídicos, o brasileiro "Habeas Corpus", na Netflix, e o americano/britânico "Guerra", na HBO Max, mostram diferentes usos e abusos do melodrama. A série dirigida por Luiz Villaça parte de um tema fascinante —a revisão criminal de uma injustiça— para chegar a uma trama rocambolesca, exagerada e confusa. O texto é tão bruto que Marjorie Estiano, uma das grandes atrizes da sua geração, se atrapalha na composição de uma advogada traumatizada. Apenas o primeiro capítulo de "Guerra" já foi exibido, o que limita muito a possibilidade de avaliação. Mas é possível observar, aqui e ali, no conflito que se arma para o divórcio de um bilionário e uma atriz famosa, que George Kay, o criador da série, também escorrega no campo do exagero, ainda que de forma aparentemente suave. O melodrama reina. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Melodrama das novelas contamina as s�ries
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