"Joguem esse lixo pela janela." "Não o soltem nunca mais." As frases foram ouvidas pelo agente da Polícia Federal Jorge Chastalo Filho enquanto conduzia o hoje presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nos 15 minutos de percurso de helicóptero entre o aeroporto Afonso Penna, em São José dos Pinhais (PR), até a sede da Polícia Federal, em Curitiba. Lula foi preso em abril de 2018. Chastalo, que ficou conhecido com o "Rodrigo Hilbert da Federal", relata os dias em que o acompanhou no cárcere no livro que será lançado nesta terça-feira (3). A construção de "Banho de Sol: os 580 dias da prisão de Lula", da editora WMF Martins Fontes, é feita em ordem cronológica, como um diário, e se estende por 592 páginas. O UOL teve acesso com exclusividade aos capítulos iniciais do livro. As frases citadas no começo desta reportagem foram repreendidas pelo comandante da aeronave que levava o presidente. "Peço que respeitem meu trabalho e se limitem a falar na fonia somente o essencial", disse. A controladora de voo do aeroporto Bacacheri, próximo à sede da PF, reforçava "que toda fonia é gravada, e isso poderá ser utilizado contra vocês [quem se manifestava]". O petista ficaria na prisão até o STF (Supremo Tribunal Federal) proibir, em novembro de 2019, a execução da pena até o trânsito em julgado dos processos. Lula foi considerado culpado em primeira e segunda instâncias nos casos do triplex do Guarujá e do sítio de Atibaia —a condenação foi mantida pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça). Faltava, no entanto, o Supremo analisar a decisão. O STF anulou as condenações em abril de 2021 por 8 votos a 3 por entender que o caso não deveria ser julgado pela 13ª Vara da Justiça Federal, em Curitiba, e sim pela Justiça Federal de Brasília. Antes, em março daquele ano, o juiz responsável pelo processo, o hoje governador eleito do Paraná, Sergio Moro (PL), foi considerado suspeito de julgar as ações contra o petista. Preparação de quatro dias e comida comprada fora da PF No livro, o agente descreve a relação com a imprensa ("tive uma primeira experiência desagradável"), como a relação com o presidente foi construída (Lula faz piadas com o cabelo do policial e o trata sempre por "querido"), o cuidado com o banho de sol e o assédio constante de drones para fotografar a estada. Segundo Chastalo, a preparação para receber o presidente durou três dias. "Naqueles dias, não acreditávamos que Lula realmente seria preso", escreve. Quatro planejamentos foram elaborados —ele não entra em detalhes de qual foi o escolhido e por que descartaram os demais. Ao chegar na superintendência da PF, Lula ficou calado e "com a fisionomia abatida", segundo o agente. "Me senti constrangido com a situação", diz. A cela de Lula tinha uma cama de solteiro, uma mesa de alumínio quadrada, uma cadeira e um armário antigo com sinais de desgaste, além das duas janelas com grades fechadas com correntes, cujas aberturas eram de no máximo dez centímetros. A bagagem tinha dois calções, uma calça de moletom, três camisetas, um chinelo branco e um kit de higiene pessoal. Um barbeador e um cortador de unhas foram retirados e só eram entregues sob solicitação. No segundo dia de claustro, o agente poupou Lula da comida da superintendência e encomendou uma marmita de um restaurante próximo. "Não pela qualidade da comida da PF, mas por cuidado mesmo. imaginei a possibilidade de alguém querer envenenar sua comida." O primeiro banho de sol aconteceu apenas no quarto dia em um espaço usado para fumantes ou reuniões a céu aberto, cercado por paredes de dois metros, sem janelas e apenas uma entrada. Lula reclamou e comparou o local a uma jaula. Entre os pedidos de Lula, uma bola para brincar com o neto Arthur, com quem desenhava em folhas em branco por "generosos minutos" nas visitas familiares. O menino morreria em abril de 2019, aos sete anos, de circunstâncias não divulgadas —a hipótese de meningite, divulgada no dia, foi posteriormente descartada. A despedida foi uma das duas únicas situações em que o presidente foi autorizado a deixar a cela —a outra foi para uma audiência na 13ª Vara Federal, em Curitiba. Ele não foi autorizado a tempo de se despedir do irmão Vavá, que morreu três meses antes. Os diálogos que trocou com o hoje presidente "quase sempre foram sobre política" e "são poucas as confissões que guardei", diz. O presidente faz comentários sobre a Lava Jato e Marina Silva —disse que gostava muito da ex-senadora e ministra, mas que ela havia ficado "muito carola". Os dois se reaproximaram nas eleições de 2022, e Marina voltou a ser ministra do Meio Ambiente de Lula. Lula ficou particularmente irritado quando um assessor relatou o furto de seu passaporte. Chastalo soube antes e orientou o assessor a não comentar o assunto com Lula. Mas, no mesmo dia, 11 senadores visitaram o petista na superintendência e o avisaram do ocorrido. "Você sabe o que aconteceu com meu passaporte?", perguntou Lula. E comentou: "Tem adulto que parece criança. Quando tira nota boa na escola, vem logo mostrando o boletim, mas, quando tira nota vermelha, diz que não recebeu o boletim do bimestre." FolhaJus A newsletter sobre o mundo jurídico exclusiva para assinantes da Folha A WMF Martins Fontes esperou o fim das eleições presidenciais para o lançamento do livro para evitar, segundo a editora, o uso como "peça política ou instrumento de campanha". O intermediário entre o agente e a editora foi o colunista do UOL Juca Kfouri, a quem conheceu durante uma visita ao hoje presidente reeleito em abril de 2019. Eles voltariam a se encontrar quando Kfouri entrevistou Lula, ainda preso, para a TVT com o jornalista José Trajano. Kfouri soube do diário e do interesse em publicá-lo e fez a ponte do agente com a editora. O livro foi editado pelo jornalista Lino Bocchini. "O Jorge Chastalo teve uma sacada muito grande. Ele começou a fazer o relato antes mesmo de o Lula chegar na cela. Ele só não conta de um ou outro dia que ele teve folga", afirma Bocchini. O original tinha praticamente o dobro do publicado, e Chastalo tirou o que considerou irrelevante. "O Chastalo é uma pessoa com muito boa educação, que escreve bem, mas o original ainda tinha muitos jargões policiais. Tivemos que adaptar para o leitor comum e dar um jeito de não ficar excessivamente grande", diz. Mesmo assim, o livro ficou com 592 páginas.
'Joguem esse lixo da janela': agente da PF relata dias de Lula em Curitiba
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