Guerras, inc�ndios florestais e migra��o pressionam Europa e exp�em fragilidades

Guerras, inc�ndios florestais e migra��o pressionam Europa e exp�em fragilidades

Mais uma vez, nos últimos dias, a Europa pareceu assistir de fora enquanto seu destino era moldado por forças externas. O presidente Donald Trump decidiria reiniciar uma guerra de grandes proporções contra o Irã, o que aumentaria o preço do petróleo? O aquecimento global provocaria incêndios florestais mais extensos e devastadores, mesmo com vários deles já avançando pelo continente? Um aumento repentino e inexplicável do número de pessoas cruzando a fronteira marroquina rumo a um exclave espanhol —quase todas imediatamente enviadas de volta— dividiria os líderes do bloco e impulsionaria a extrema direita? Este já tem sido um verão brutal para a Europa: duas guerras, calor recorde, inflação em alta e profunda ansiedade em relação a alimentos, energia e segurança. As crises sucessivas vêm provocando apelos por uma ação conjunta, reuniões urgentes entre diferentes grupos de presidentes e primeiros-ministros e muita inquietação política. Mas, como tantas outras coisas que aconteceram nos últimos anos, muitos dos desafios da Europa estão fora do seu controle. A guerra contra o Irã —um conflito que a maior parte da Europa nunca quis— impactou a vida em toda a região, aumentando os preços dos combustíveis, dos alimentos e das viagens. Os líderes do continente prometeram ajudar a garantir a passagem de petróleo pelo estreito de Hormuz quando os combates terminarem. Ainda assim, parecem destinados a tomar conhecimento da próxima etapa da guerra pelas redes sociais de Trump. A Europa não conseguiu pôr fim à guerra na Ucrânia depois de mais de quatro anos de derramamento de sangue. Suas conquistas na redução das emissões para combater as mudanças climáticas são ofuscadas pelas ações dos Estados Unidos e da China. O futuro da inteligência artificial está sendo moldado, em grande parte, em outros lugares. O populismo de direita cresceu, alimentado pela migração, pela desigualdade e pela desinformação. "Este é um momento difícil e inquietante para a Europa", disse Richard Haass, que presidiu o think tank Council on Foreign Relations por duas décadas. Segundo ele, a Europa é, em parte, vítima das circunstâncias, mas também é responsável pela falta de autoridade sobre o próprio destino. "Não é apenas que gastaram menos do que deveriam; eles também se organizaram de forma insuficiente no que diz respeito à própria segurança", afirmou. "Com poucas exceções, a Europa é essencialmente uma espectadora na disputa pela IA. Isso não foi algo que os EUA ou a China fizeram com a Europa. Foi algo que a Europa fez consigo mesma." Em muitas frentes, a Europa agiu. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, há mais de quatro anos, a Europa e o Reino Unido tomaram medidas imediatas para apoiar Kiev, entre elas o envio de bilhões de dólares em ajuda, a imposição de sanções a Moscou e o acolhimento de milhões de refugiados ucranianos por meio de programas especiais. Depois que Trump voltou à Casa Branca, em 2025, e sinalizou uma postura mais amistosa em relação ao presidente Vladimir Putin, os governos de Reino Unido, França, Alemanha e de outros países europeus formaram a "Coalizão dos Dispostos" para tentar proteger os interesses da Ucrânia em qualquer acordo de paz. Também trabalharam por uma reconciliação entre os presidentes ucraniano e americano. Esses esforços ajudaram a impedir que Putin fechasse um acordo com Trump às custas de Kiev. Mas, embora a coalizão tenha afirmado que "nenhum acordo relativo aos interesses e à segurança da Europa pode ser negociado sem os europeus", fazer valer essa posição mostrou-se difícil. Repetidas vezes, Trump deixou os aliados dos EUA de lado em favor de negociações diretas —e em grande parte infrutíferas— com a Rússia ou com a Ucrânia. Os europeus exerceram ainda menos influência sobre o conflito dos EUA e de Israel contra o Irã, embora seus efeitos sejam sentidos em todo o continente. A oposição explícita da Europa à decisão de Trump de entrar em guerra enfureceu o líder americano e deteriorou as relações transatlânticas. Euro Radar Uma newsletter sobre geopolítica e economia global, editada pelo jornalista João Caminoto, de Paris Em paralelo, incêndios florestais vêm devastando a Europa, onde extensas áreas em vermelho nos mapas meteorológicos indicam as ondas de calor sem precedentes. Durante a maior parte das últimas duas décadas, os países europeus estiveram, em geral, de acordo quanto aos perigos representados pelas mudanças climáticas e tomaram medidas para reduzir as emissões e investir em energia renovável. Mas, desde a chegada de Trump ao poder nos EUA, eles passaram a divergir de um dos maiores poluidores do mundo, o que torna mais difíceis seus esforços para enfrentar as mudanças do clima. Agora, está claro que os países da região enfrentam as consequências da crise climática, com as temperaturas médias subindo de forma mais rápida do que em qualquer outro continente. A chegada repentina, na semana passada, de dezenas de milhares de pessoas a Ceuta, um pequeno território espanhol na costa do Norte da África, levantou a possibilidade de uma nova crise que põe à prova a unidade europeia em torno de uma das questões políticas mais explosivas da região. Pedro Sánchez, o primeiro-ministro de esquerda da Espanha, tornou-se conhecido por sua postura acolhedora em relação a alguns migrantes, sobretudo trabalhadores da América Latina. Mas o premiê adotou uma abordagem mais dura com pessoas que tentam cruzar de forma ilegal as fronteiras da Espanha com o Marrocos. O caso expôs tensões na União Europeia que se aprofundaram nos últimos anos, à medida que partidos de extrema direita, entre eles a Alternativa para a Alemanha e o Reagrupamento Nacional, da França, exploram o medo relacionado aos migrantes como forma de mobilizar seus apoiadores políticos. Quase duas dezenas de países da UE criticaram a Espanha nas horas seguintes à chegada dos migrantes a Ceuta, e alguns pediram a suspensão do país da zona de livre circulação do bloco. Sánchez respondeu chamando essas nações de egoístas. Alguns analistas observaram que a falta de solidariedade com a Espanha em um momento no qual o país enfrentava uma ameaça externa era um sinal da dificuldade que o continente tem para projetar autoridade no cenário global. Haass disse acreditar que a falta de união ressalta o problema fundamental da Europa em sua tentativa de moldar o próprio futuro.

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