Este rob� vai entregar sua comida, desde que n�o seja destru�do antes

Este rob� vai entregar sua comida, desde que n�o seja destru�do antes

The New York Times O robô de entrega de comida estava caído de bruços em uma calçada no centro de Los Angeles (EUA), com as quatro rodas tortas, quando Jag Gonzalez foi socorrê-lo. Pequena, baixa e controlada por IA (inteligência artificial), a máquina consegue realizar quase todas as tarefas sozinha, exceto se levantar. Robôs de entrega de comida aguardam em uma calçada sob o sol em Los Angeles - Daniel Cole/Reuters "Não foi a primeira vez que encontrei um deles virado", disse Gonzalez. "Eu vinha vendo esse tipo de agressão com muita frequência." Gonzalez, de 28 anos, colocou o robô de volta em movimento e foi ao cinema, onde contou aos amigos sobre o resgate. Mas, três horas depois, lá estava ele novamente, em outra esquina: o mesmo robô, sendo espancado pelos chutes de um pedestre cambaleante que usava tênis da Adidas. Gonzalez tentou impedir o agressor. Mas o homem se agachou para encarar diretamente os olhos de LED do robô. "Você é uma porcaria", disse ele —antes de desferir um último chute na parte central da máquina. Em cidades americanas de todos os portes, legiões de máquinas semelhantes transportam pedidos de comida para viagem, como sushi, pizza e anéis de frango do White Castle, e colocam à prova a possibilidade de humanos e robôs coexistirem. Os primeiros sinais não são animadores. Ao longo de 2026, americanos chutaram, tombaram e espancaram robôs de entrega de comida —a manifestação mais concreta da inteligência artificial a chegar à porta de suas casas. C-Level Uma newsletter com informações exclusivas para quem precisa tomar decisõesNo último ano, uma multidão cercou e golpeou um robô de entrega em Los Angeles; um homem em Miami tentou arremessar outro de uma ponte; uma terceira pessoa atacou um robô na rua; e, em Sacramento, na Califórnia, três homens filmaram a si mesmos derrubando e arremessando uma máquina contra a calçada. O vídeo acumulou quase 2,5 milhões de visualizações nas redes sociais. A legenda? "Protegendo o mundo da IA". Alguns ataques são atos de vigilantismo; outros podem ser apenas demonstrações de estupidez, motivadas pela emoção de agredir algo indefeso. Eunisses Hernandez, integrante do Conselho Municipal de Los Angeles, cuja área de atuação está tomada por robôs, afirma que a tendência transmite uma mensagem clara. "Como as pessoas estão cada vez mais atentas às grandes empresas e ao avanço da tecnologia de IA, elas sentem que essa é a forma mais próxima de reagir a tudo isso, além da internet", disse. "As pessoas sentem que estão ficando para trás." Cerca de 5.000 robôs fazem entregas nos Estados Unidos, em sua maioria sem incidentes, segundo Dan Ives, sócio e analista de tecnologia do banco de investimentos Yorkville Ives. Nos próximos três anos, o número deve subir para 8.000, e analistas preveem que o setor movimentará mais de US$ 5 bilhões (R$ 25,3 bilhões) nos EUA, acrescentou Ives. Por meio de parcerias com plataformas de entrega de comida, como DoorDash e Uber Eats, as empresas operam em pelo menos dez regiões metropolitanas. Usando inteligência artificial, os robôs avaliam o trânsito e planejam rotas. Eles se aproximam dos restaurantes, abrem compartimentos térmicos e recolhem os pedidos. Alguns conseguem transportar até seis pizzas grandes. Uma variedade de alertas — por mensagens de texto, ligações ou notificações— avisa os clientes quando os pedidos chegam. Com círculos brancos brilhantes no lugar dos olhos e nomes humanos estampados nas laterais, os robôs da Serve Robotics foram projetados para parecer inofensivos, afirmou Ali Kashani, presidente-executivo da empresa. "O vandalismo e a aceitação social estavam entre nossas principais preocupações", acrescentou. Mas a aparência tem seus limites. Alguns robôs que circulam livremente se tornaram agentes do caos: bloqueiam ambulâncias, congestionam calçadas, colidem com caminhões e trens e, nesse percurso, alimentam uma onda de aversão aos robôs. Em Los Angeles, Miami, Filadélfia e outras cidades, as máquinas foram alvo de vandalismo no último ano, segundo departamentos de polícia e relatos publicados nas redes sociais. Os robôs também se metem em situações perigosas por conta própria: caem de escadas, atravessam vidraças e apresentam falhas de funcionamento nas calçadas. Pelo menos um colidiu com um carro autônomo. Outro entrou em uma área onde havia um incêndio em andamento. "ROBÔ AINDA ESTÁ NO LOCAL", escreveu em janeiro um atendente da polícia de Miami, ao responder a uma ocorrência envolvendo uma máquina que bateu contra um prédio de 15 andares e quebrou uma janela. Um cachorro confronta um robô de entrega de comida em Los Angeles - Michael IP/AFP Mas o caos provocado por robôs está longe de ser uma prioridade para os policiais. Como afirmou Tom Saggau, porta-voz do sindicato Police Protective League, de Los Angeles: "Esta é Los Angeles. Se tivermos que começar a nos preocupar com isso, estaremos em sérios" —hum— "apuros". As desventuras e os acidentes envolvendo robôs de entrega são amplamente documentados nas redes sociais — às vezes, pelos próprios agressores. Entre os episódios mais lamentáveis estão um ataque coletivo e brutal durante a madrugada em Los Angeles, após a World Series do ano passado, que teve mais de 700 mil visualizações, e uma humilhação na Filadélfia, onde um robô alheio ao que acontecia circulava com a frase "me destrua, por favor" escrita no que poderia ser considerado sua testa. A publicação recebeu mais de 3.000 curtidas. A expectativa de viralizar nas redes pode incentivar os ataques, disse Lindsay Ouellette, professora de psicologia da Universidade La Salle, na Filadélfia, que estuda as relações entre humanos e robôs. "Sabemos que conteúdos controversos geram cliques", afirmou. Parte desse interesse se deve ao fato de que os ataques a robôs tocam em uma preocupação mais ampla: o "medo que as pessoas têm em relação aos empregos e à possibilidade de a IA assumir o controle", acrescentou. Os robôs de entrega ajudam os restaurantes a reduzir os custos com mão de obra ao substituir entregadores humanos. Mas as empresas de robótica ressaltam que também criam empregos. A cada dez robôs da Coco Robotics, surge uma vaga de engenharia, disse Zach Rash, presidente-executivo da empresa, sediada em Los Angeles. Segundo ele, os robôs também beneficiam as comunidades de outras maneiras. As máquinas da Coco escaneiam as calçadas e compartilham dados com um aplicativo que ajuda pessoas com deficiência visual a evitar obstáculos. As empresas de robótica afirmam que trabalharam com autoridades locais, grupos de pedestres, ciclistas e pessoas com deficiência, entre outros, para garantir que a chegada das máquinas às cidades ocorresse sem problemas. Mas a capacidade dos robôs de coletar dados é um ponto de tensão para alguns moradores. Segundo autoridades locais, eles se sentem vigiados por máquinas que surgiram repentinamente, com pouca regulamentação. Em Glendale, subúrbio de Los Angeles, o prefeito Ardashes Kassakhian disse que a chegada dos robôs foi "como algo saído de um filme de ficção científica". Em Chicago, eles "surgiram da noite para o dia", afirmou Daniel La Spata, vereador do 1º distrito da cidade. Kassakhian propôs uma pausa na expansão dos robôs. No distrito de La Spata, os moradores votaram amplamente a favor de impedir que as máquinas ocupassem mais ruas. Os dois representantes afirmam que uma série de questões precisa ser respondida: os robôs deveriam ser proibidos em áreas com grande circulação de pedestres? Eles estão substituindo trabalhadores humanos? Em Los Angeles, Hernandez apresentou uma proposta aprovada pelo Conselho Municipal no ano passado que solicita ao Departamento de Transportes da cidade uma avaliação dos impactos dos robôs sobre os pedestres, a acessibilidade e outras questões, além de sugestões de melhorias. "Há muita gente insatisfeita", disse ela. Hernandez acredita que essas pessoas estão "percebendo o que isso representa e vandalizando os robôs por frustração".

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