O debate público nutre, de longa data, uma relação ambígua com a barbárie. A frase que virou meme e passou a circular com uma naturalidade assustadora entrega a dimensão da nossa degradação moral: "antes uma Elize Matsunaga do que uma Elisa Samudio". A gente conhece as referências. A questão é: a única alternativa reservada às mulheres neste país é escolher entre ser morta ou virar esquartejadora de marido? Com a estreia do filme Elize: Sombras de uma Mulher, na Netflix, as redes foram inundadas por centenas de comentários que tratam a protagonista, inspirada na personagem da vida real, como uma espécie de vingadora injustiçada. Uma mulher que teria apenas "reagido", "vítima" de um histórico violento que enfrentava desde sua infância e adolescência. É preciso fazer um malabarismo mental que apague a história e a cronologia do crime para transformar Elize numa heroína pop. Não houve surto, não houve legítima defesa, não foi no calor do momento. O que teve foi uma logística bastante organizada. Ela deu um tiro na cabeça do marido, saiu do apartamento, comprou facas e malas, voltou para casa, esquartejou o corpo em sete partes durante seis horas. Na própria confissão, deixou o motivo claro: a descoberta de uma traição, o medo de perder a guarda da filha e o padrão de vida conquistado no casamento. Mesmo que o crime tivesse uma marca passional, não dá para defender. Vamos lembrar que em 2023, o STF derrubou de vez a tese grotesca da "legítima defesa da honra", que por décadas serviu para aliviar a pena de homens que matavam esposas sob a justificativa de traição. Foram anos de luta feminista para enterrar essa aberração. Vamos ressuscitar essa lógica com os sexos invertidos? Não existe "barbárie do bem". Celebrar a justiça com as próprias mãos é o pesadelo de qualquer grupo vulnerável. O Estado de Direito e a lei existem para proteger quem é mais fraco, porque no regime da vingança privada ganha quem tem mais força física ou mais sangue-frio. Confundir crime com legítima defesa ou reparação histórica só prejudica quem realmente precisa da lei para sobreviver. Em março, uma mãe em Belo Horizonte foi absolvida pela morte do companheiro ao flagrá-lo abusando da filha de 11 anos. A absolvição foi por um magro quatro a três. Lá, havia uma criança sob ataque iminente. No apartamento de Elize, não. A justiça soube ver a diferença. A internet, aparentemente, não. Eleger uma esquartejadora como símbolo é desmoralizar um movimento que nunca reivindicou o direito de matar, mas o de viver, de ser levada a sério na delegacia, de ver medida protetiva ser cumprida. É uma afronta a milhares de mulheres que todos os dias criam coragem, denunciam, recomeçam do zero, amparadas por um debate custou décadas para garantir leis, exigir sua aplicação e constranger a omissão do Estado. Insistir na romantização da vingança, da "reparação histórica" não melhora a vida real das mulheres. Não constrói abrigo, não acelera socorro policial, não desarma o agressor na esquina. Inverter a figura do carrasco não é vitória política, é apenas a capitulação à mesma violência que nos mata. Elize Matsunaga não é uma heroína. É a mascote conveniente de um discurso vingativo. E o aspecto mais assustador é que essa defesa não vem apenas de uma militância vazia, mas de mulheres comuns –colegas de trabalho, conhecidas do grupo de mensagens, amigas–, pessoas absolutamente normais, pacíficas, que embarcam nessa narrativa e passaram a tratar barbárie como justiça. As pessoas precisam voltar à razão. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Elize Matsunaga n�o � a hero�na como querem pintar
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