No final dos anos 1970, um jovem Lula despontou como o líder das grandes greves do ABC, às quais se somariam outros movimentos pró-democracia que aceleraram a decadência da ditadura. Do ponto de vista do trabalhador, que Lula passou a representar politicamente, a democracia nunca foi um conjunto de instituições ou princípios de governo. Democracia, para aqueles que migraram e trabalhavam em fábricas e periferias, como Lula, foi sempre uma promessa político-moral: todos, mesmo os que nasceram na miséria, deveriam ser tratados com respeito. Todos deveriam ter o direito de buscar uma vida digna. Quase 50 anos depois, um octogenário Lula parecia encerrar sua carreira política vendo a extrema direita triunfante justamente nesse campo político-moral. Em expansão pelo mundo afora, as ideologias extremistas prometem hoje ao pobre que sua dignidade vem justamente de sua desconexão da figura do trabalhador. Eles devem ser CEOs de sua MEI, ou se dizerem operadores do mercado de futuros, quando apostam nas bets. A extrema direita, como fez a esquerda antes, também diferencia radicalmente a moralidade deste sujeito daquele que sempre foi o outro do trabalhador, o bandido. Sem resposta nem para uma, nem para outra dicotomia, a narrativa de Lula parecia ter perdido tração no mundo popular. O primeiro turno havia imposto uma derrota acachapante na Câmara, no Senado, nas Assembleias Legislativas e nos governos estaduais, o que fará do novo governo um desafio de sobrevivência, que começa nesta segunda-feira (26). A extrema direita saiu muito à frente também na disputa presidencial, com 2 milhões de votos de vantagem e o apoio de candidatos derrotados. Mas Flávio perdeu a eleição quando chamou Lula de "nove dedos", zombando justamente da dignidade do trabalhador que se sacrifica diariamente. Quando errou o nome da criança de cinco anos, assassinada com um tiro de fuzil, logo após dizer que, em segurança, a vítima deve prevalecer sobre o agressor (para quem ele advogou gratuitamente, nesse caso). Quando reforçou o preconceito contra nordestinos, historicamente em luta por reconhecimento nacional. Quando sua imagem passou a ser a do playboy que faz festas num barco, com prostitutas, e não mais a do filho do seu pai, que segue a de um pai de família simples, moralista e vindo das camadas subalternas do mundo militar. Nessa transformação de imagem, o "Exército de Lula" teve um papel fundamental justamente ao usurpar a metáfora da guerra que seus inimigos haviam construído. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Nada será mais desafiador, para Lula, do que governar com essa composição no Legislativo e nos estados, nos quais a extrema direita terá facilidade para compor maioria. O STF será novo campo de batalha, e se mostra tão fraturado quanto deslegitimado por seguidos casos de corrupção explícita. Esse mandato já começaria, portanto, com muito mais dificuldades do que o que Dilma começou em 2014. Mas seu principal desafio está no campo da segurança, ou mais precisamente da coerção estatal, onde vai se jogar a luta política decisiva. Será a popularidade renovada de Lula capaz de controlar a contrarrevolução violenta que se gesta na extrema direita, e sobretudo nas forças da ordem? A democracia, como garantia de dignidade para todos, sucumbirá à guerra violenta que fratura a cena política hoje? Não são questões triviais, mas Lula parece estar acostumado com elas. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Democracia e guerra: os desafios de Lula
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