Deborah Colker cria mosaico com suas coreografias mais c�lebres em espet�culo

Deborah Colker cria mosaico com suas coreografias mais c�lebres em espet�culo

Bailarinos flertam com o risco ao dançar entre 90 vasos semelhantes a cerâmicas chinesas. A imobilidade e a delicadeza dos objetos contrastam com o vigor e a visceralidade de pernas, braços e quadris. Com rigor e precisão, os artistas se lançam no ar em saltos e piruetas, enquanto parecem ignorar o risco sob seus pés. Uma das coreografias mais conhecidas de Deborah Colker é também uma metáfora para a vulnerabilidade da dança. O palco, afinal, é um espaço de glória e catarse, mas também um terreno movediço e traiçoeiro. Um passo em falso e o triunfo pode se transformar em ruína. "Os vasos não são sobre esse bailarino incrível que dá milhões de piruetas e que é super-homem. Não é sobre isso", diz Colker. "É sobre encontrar a liberdade dentro da restrição." Essa coreografia de natureza paradoxal é um dos destaques de "Remix", espetáculo que chega à capital paulista após ter passado por cidades como Porto Alegre, Curitiba e Rio de Janeiro. Com 16 bailarinos no elenco, a produção é uma miscelânea de trabalhos do repertório da companhia que leva o nome de Colker, grupo formado há 32 anos. Ao longo do espetáculo, vemos os corpos delirantes e passionais de "Vulcão", trabalho de 1994, e a famosa roda-gigante de "Rota", que estreou em 1997. Há ainda os vasos de "Quatro por Quatro", de 2002, e o balé têxtil concebido para "Belle", peça encenada inicialmente em 2014. "Tudo o que está no ‘Remix’ pertence àquilo que a companhia é agora. As nossas inquietações e as nossas investigações estão ali sendo revisitadas", diz Colker, para quem a peça representa um exercício de autorreflexão. "É você se ressignificar, ver onde está e onde estava, o que ainda te pertence e o que é preciso para seguir em frente." O espetáculo também coroa a trajetória de uma das coreógrafas em atividade mais importantes do Brasil. Em mais de três décadas de carreira, Colker idealizou espetáculos que lotaram teatros e ajudaram a popularizar a dança no país —gênero por vezes considerado elitizado. A boa acolhida de seu trabalho se fez sentir também entre a crítica especializada. Em 2001, venceu o prêmio Laurence Olivier, a maior honraria do teatro britânico. Em 2018, ganhou o Prix Benois de la Danse, tido como uma das principais láureas da dança mundial. Ela foi ainda a primeira mulher a dirigir um espetáculo da companhia canadense Cirque du Soleil. Todo esse prestígio foi forjado por meio de produções que promovem uma fricção entre o corpo e o espaço. Isso foi visto, por exemplo, em "Quatro por Quatro", espetáculo que incorporou elementos das artes plásticas à cenografia. Os vasos sobre os quais os bailarinos saltam fazem parte de uma instalação do arquiteto e cenógrafo Gringo Cardia. O cenário trazia ainda "Espaços Virtuais: Cantos", obra em que Cildo Meireles revela as frestas que surgem a partir do encontro entre as paredes. A coreógrafa, aliás, se debruçou sobre a arquitetura para conceber "Casa", espetáculo de 1999 que tinha como cenário o espaço doméstico. "No meu trabalho, a investigação entre o movimento e o espaço é muito forte. Ela já foi o carro-chefe, mas agora eu parto de outros lugares. Apesar disso, essa investigação de como o corpo produz movimento e de como o movimento se relaciona com o espaço continua ali." Se na peça "Casa" Colker se voltou à arquitetura, em "Belle" ela referenciou a literatura ao usar como inspiração "Belle de Jour", livro do escritor franco-argentino Joseph Kessel. No espetáculo, bailarinos escondidos atrás de um grande tecido branco interagem com a colega de elenco posicionada na frente do pano. Por um momento, o espectador tem a impressão de que a artista está dançando com as paredes. Essa estética surrealista dialoga com a adaptação cinematográfica de "Belle de Jour", de 1967. Com direção de Luis Buñuel, o filme traz Catherine Deneuve no papel principal em meio a uma atmosfera onírica, como se a personagem estivesse perdida em devaneios. "Eu precisava trazer o mundo contemporâneo para falar com a dança, porque sou uma pessoa que gosta de livros, cinema e artes plásticas." A artista também é conhecida por questionar as regras que orientam o seu ofício. Em "Rota", por exemplo, ela pôs em xeque a busca pelo equilíbrio perfeito. Para isso, instalou no palco uma grande roda de ferro na qual os dançarinos giram em movimentos circulares. Enquanto a dança tradicional prima pela segurança da estabilidade, Colker parece mais interessada na incerteza da vertigem. "A minha proposta é dançar dentro do desequilíbrio. O bailarino quer tanto o equilíbrio perfeito, mas como é o desequilíbrio físico?" Questionamentos como esses fazem parte do processo criativo de uma artista que costuma questionar convenções de seu ofício. "Eu faço perguntas e essas perguntas vêm junto com um risco. A sensação é que o abismo está perto do calcanhar." Nos últimos dois anos, ela se viu obrigada a encarar alguns desses abismos. Em novembro de 2024, o seu marido, o cantor Toni Platão, foi internado em estado grave após sofrer um AVC. Em março deste ano, o neto Theo Colker morreu aos 16 anos. O jovem tratava a epidermólise bolhosa —doença rara que provoca bolhas e feridas na pele. Nesse período, a coreógrafa encontrou no próprio ofício uma forma de lidar com o sofrimento. "Não é que a arte e a dança curem, mas o trabalho faz você reagir. É um agente que te provoca e te inspira. O copo vazio começa a encher um pouco." Cerca de dois meses após a morte do neto, a artista levou ao palco do célebre Metropolitan Opera House, em Nova York, "O Último Sonho de Frida e Diego", trabalho no qual assinou a direção e a coreografia. Criada pelo dramaturgo Nilo Cruz e pela pianista Gabriela Lena Frank, a ópera retrata a descida do personagem de Diego Rivera ao mundo dos mortos para reencontrar Frida Kahlo, pintora mexicana com quem o muralista foi casado. Durante a produção, Colker perguntou a Cruz se ele poderia mudar um verso do libreto, sugestão que o ganhador do Pulitzer atendeu. "Eu queria trazer amor e eternidade. Na ópera, Diego não morre para finalizar. Ele morre para continuar e encontrar Frida."

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