Somos três dos pesquisadores responsáveis pelo estudo da Rede Escola Pública e Universidade (Repu) que trouxe evidências de fraudes sistêmicas no Provão Paulista, exame aplicado pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) a estudantes do ensino médio. Reportagem desta Folha que divulgou o estudo ("Análise identifica resultados atípicos no Provão Paulista, que seleciona para universidades de SP", 4/9), porém, aliviou o peso de suas conclusões ao mencionar no título apenas a ocorrência de "resultados atípicos". Nas buscas do Google, o título apontou um "alerta para fraude"; e, no site da Folha, "indício de fraude". Apesar das decisões editoriais divergentes, que só confirmam a sensibilidade do caso, o texto não apareceu na edição impressa do jornal. O Provão serve simultaneamente para avaliar escolas, bonificar ou punir educadores e selecionar estudantes para USP, Unicamp, Unesp, Univesp e Fatecs. Nas escolas estaduais, é aplicado por profissionais cuja remuneração e vida funcional dependem do desempenho dos alunos no exame. Soma-se a isso uma política de plataformização do ensino que banalizou o uso de celulares inclusive em avaliações. Na última edição do Provão, a imprensa noticiou denúncias de cola, fotos de provas circulando em redes sociais e fiscais fornecendo respostas. A Seduc-SP classificou tudo como "ocorrências pontuais de indisciplina". Agora, num ato de negacionismo, descartou liminarmente os achados do estudo alegando que "resultados estatisticamente atípicos, isoladamente, não podem ser tratados como evidência de fraude". Ocorre que a pesquisa examinou a variação das notas dos mesmos alunos ao longo dos três anos do ensino médio e descobriu que não foram apenas uns poucos estudantes que tiveram "resultados atípicos", mas classes e escolas inteiras espalhadas pelo estado. Não há milagre pedagógico que explique esse fenômeno. É por isso que falamos em fraudes sistêmicas. Elas não foram generalizadas na rede estadual, mas tampouco se limitaram a condutas isoladas. Foram facilitadas pela falta de controle na aplicação do Provão e, acima de tudo, induzidas pelas políticas da Seduc-SP, pois simplesmente não ocorreram nas escolas técnicas e municipais, cujos alunos também participaram do Provão Paulista. A Lei de Campbell ensina que, quanto mais um indicador quantitativo é usado para tomar decisões de grande impacto, mais sujeito ele fica à manipulação. Ignorando esse princípio, a Seduc-SP transformou a avaliação do ensino médio em instrumento de controle pelo medo e ainda lhe agregou a imprópria função de vestibular. Com isso, comprometeu a lisura do processo seletivo e a legitimidade de seus resultados. O estudo não permite identificar quem fraudou, como isso foi feito e quais vagas nas universidades foram ocupadas por fraudadores. Mas permite afirmar que a fraude existiu, foi recorrente e derivou de problemas de concepção e na execução da prova. O edital do Provão Paulista 2026 já foi lançado, e o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) deu a entender que fará pouco para impedir a repetição das fraudes. É sua obrigação, no entanto, tomar todas as medidas necessárias para garantir que o processo seja justo e confiável. Espanta-nos que quem deveria, junto com os pesquisadores, alertar a sociedade para o severo comprometimento da avaliação educacional no estado de São Paulo, condescenda com negacionistas e deixe de dar às coisas os nomes que têm. TENDÊNCIAS / DEBATES Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
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