Um ato solene organizado pela comunidade judaica de São Paulo na manhã desta quarta-feira (7) relembrou as vítimas do grupo terrorista Hamas, quando se completam três anos do ataque do 7 de Outubro. Além de lideranças religiosas, participaram da cerimônia no Memorial às Vítimas do Terrorismo, no Cemitério Israelita de Embu, em Embu das Artes (Grande São Paulo), os jovens brasileiros Rafael Zimermann e Maurício Wencik, sobreviventes dos ataques. "Viver esse dia foi uma coisa que eu não esperava, nunca fui preparado fisicamente ou emocionalmente para isso", contou Wencik aos jornalistas. "Pude amadurecer, enxergar a vida de uma forma diferente. No começo, não gostava muito de falar sobre isso, mas percebi a importância de falar." Ele disse que a memória daquele dia continua fresca, mesmo passados três anos. "Eu vivo esse dia já há três anos, é como se todos os dias para mim fossem 7 de outubro. Quando ouço um barulho, sinto um cheiro diferente ou vejo alguma coisa, eu revivo esse dia —mas minha vontade de viver e fazer a diferença é muito maior do que a minha dor." "Muita gente me pergunta: O que mudou em você depois daquele dia?", discursou Zimermann. "Eu tento ser um ser humano melhor. Estendo minha mão ao próximo e agradeço a Deus todo dia por estar vivo. Se eu puder dar um conselho para vocês nesse dia, é que façam a vida valer a pena." "Digam 'eu te amo', perdoem, peçam perdão, abracem seus familiares e seus amigos, e não briguem por coisas fúteis. A gente nunca sabe o dia de amanhã. É o momento da gente se unir e ser mais forte, de melhorar como ser humano", completou.Segundo Célia Parnes, presidente da Fisesp (Federação Israelita do Estado de São Paulo), lembrar o 7 de Outubro é também assumir uma responsabilidade diante das próximas gerações. "Há datas que pertencem à história e há datas que passam a viver dentro de um povo. O 7 de Outubro é uma delas. Cada vítima tinha um nome, uma história, afetos e um futuro. Três anos depois, a ferida permanece." A comunidade também homenageou as vítimas brasileiras do Hamas. Em maio de 2024, o corpo de Michel Nisenbaum, 59, brasileiro-israelense sequestrado, foi recuperado pelo Exército de Israel em Jabalia, no norte da Faixa de Gaza, em operação conjunta com o serviço de inteligência de Tel Aviv. Segundo militares israelenses, Nisenbaum foi morto no momento da captura ou no caminho para o cativeiro, assim como outros dois reféns. Ele teria sido capturado enquanto se deslocava a uma base do Exército próxima ao kibutz Re'im para buscar uma neta que estava com o genro, militar. Nisenbaum era o único brasileiro entre os reféns sequestrados pelo grupo. Sua morte elevou para quatro o número de brasileiros mortos pela organização —os outros três, Ranani Glazer, 23, Bruna Valeanu, 24, e Karla Stelzer Mendes, 42, estavam na festa de música eletrônica Nova invadida pelos terroristas. Este é o primeiro aniversário sem nenhum refém mantido em Gaza, após os sobreviventes terem sido trocados por palestinos detidos em prisões israelenses; os restos mortais do último refém foram recuperados em janeiro. HOMENAGENS PELO MUNDO Para marcar a data, homenagens às vítimas também foram realizadas em Israel e em diversos países nesta quarta-feira. Em Paris, políticos e visitantes anônimos prestaram homenagens no pavilhão memorial instalado pelo Crif (Conselho Representativo das Instituições Judaicas da França). O presidente Emmanuel Macron prometeu "combater o antissemitismo em todos os lugares e sempre". Em Berlim, o chanceler Friedrich Merz também prometeu combater o antissemitismo no país, ao mesmo tempo em que defendeu uma solução de dois Estados para Israel e os territórios palestinos. "Estamos testemunhando um crescimento de antissemitismo na Alemanha —um antissemitismo que, com demasiada frequência, não é contestado", disse Merz, acrescentando que seu governo "fará tudo o que estiver ao seu alcance para combater resolutamente o antissemitismo em todas as suas formas, sejam elas novas ou antigas". Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo O primeiro-ministro australiano Anthony Albanese disse que seu país está ao lado da comunidade judaica, tanto no país quanto no exterior. "Para muitos de nós, nenhum dia desde então foi fácil." A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que o bloco "está ao lado de todos aqueles cujas vidas foram para sempre mudadas por aquele dia". Ela acrescentou que os europeus estão prontos para ajudar a transformar "o frágil cessar-fogo em uma paz duradoura, baseada em uma solução de dois Estados". Aliado do governo de Israel, o presidente argentino Javier Milei publicou uma mensagem no terceiro aniversário dos ataques. "Am Yisrael Chai" ( "o povo de Israel vive"), escreveu, em seu perfil no X, ao compartilhar mensagem publicada pelo embaixador argentino em Tel Aviv, Axel Wahnish. SEGURANÇA REFORÇADA EM ISRAEL Em diferentes cidades de Israel, houve manifestações em memória das vítimas. Em Re'im, onde ocorria o festival Nova no momento da invasão, familiares e amigos das vítimas fizeram um minuto de silêncio às 6h29 (0h29 em Brasília), horário exato do início do ataque. "Foi o minuto em que nossas vidas mudaram para sempre", disse à agência de notícias AFP Katia Zohar, mãe de Bar, assassinada aos 23 anos no festival. "Lembro de tudo." Do momento em que ela me ligou para que eu fosse buscá-la, porque havia mísseis voando." Anna Davitashvili, 53, recordou o filho Shaun, morto aos 25 anos no mesmo festival. "Sinto falta dele", disse. "Sinto muitíssimo por não ter conseguido salvá-lo." Também houve um momento de silêncio no kibutz Kfar Aza, onde 64 pessoas foram mortas e 18 sequestradas. As cerimônias oficiais ocorreram em Jerusalém na segunda-feira, com a participação do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Em contrapartida, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas do Irã afirmou que o ataque do Hamas acelerou o declínio de Israel. "O Eixo da Resistência transformou sua estratégia defensiva em uma estratégia ofensiva para a defesa legítima do povo palestino e de sua terra, e acelerou o declínio do regime sionista", disse Ali Abdollahi em um comunicado. O Hamas, que segue presente em Gaza apesar das promessas de Netanyahu de eliminar o grupo, chamou o 7 de outubro de "um dia glorioso na história de nosso povo", afirmando ter "destruído o mito do Exército invencível". Os atos ocorrem sob segurança reforçada, a três semanas das eleições gerais em Israel, marcadas para 27 de outubro, e uma semana após um ataque em que o piloto de um avião com destino a Tel Aviv foi esfaqueado. O ministro da Defesa, Israel Katz, afirmou que o Exército segue em alerta devido a informações de inteligência sobre possíveis ataques do Hamas na data do aniversário. Pesquisas indicam disputa difícil para Netanyahu, que nos últimos três anos lançou campanhas militares no Líbano e no Irã, além de intervir na Síria e no Iêmen. Um de seus adversários, o ex-premiê Naftali Bennett, o acusa de não ter evitado os ataques. "Este foi um fracasso colossal do Estado de Israel, que foi fundado para defender os judeus em nossa terra", declarou no local do festival Nova.
'� como se todos os dias fossem 7 de outubro', diz brasileiro sobrevivente do ataque do Hamas h� 3 anos
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