Imagens de pessoas mais velhas sendo amparadas para chegar até a seção de votação durante o domingo (25) inundaram as redes sociais. Muitos daqueles idosos levavam consigo bengalas, andadores, muletas e aparatos de acessibilidade os mais diversos, o que ajudou a tornar cada uma das cenas numa espécie de microssérie turbinada de potência emocional misturando esforço, determinação e enfrentamento. A energia empenhada para chegar às urnas ganhava ainda mais repercussão quando os velhos tinham de encarar questões arquitetônicas nos pontos de votação e precisavam ser carregados para vencer escadas, degraus e apertos. De repente, ganhou proporções continentais a percepção de que o país maltrata pessoas com dificuldades de mobilidade, embora elas sejam cidadãs como quaisquer outras. A importância desse povo para encaminhar o destino desse país não pode ser desprezada, veja só. Um outro elemento do universo da diversidade física, sensorial e intelectual que ganhou enorme repercussão foi o capacitismo entoado por Flávio Bolsonaro contra Lula ao zombar da questão dos nove dedos do presidente durante o debate na antevéspera do pleito. Embora não se possa afirmar que tenha havido um efeito numérico significativo na votação, a reação ao preconceito parece ter chegado forte ao coletivo, que multiplicou em poucas horas ilustrações variadas da mão acidentada de Lula. O presidente perdeu o dedo mindinho da mão esquerda num acidente de trabalho quando ele ainda era torneiro mecânico. O enfrentamento ao preconceito contra pessoas com deficiência é, sem nenhuma dúvida, uma das discussões que mais tardam a ganhar espaço na sociedade. É só examinar em casa, no ambiente de trabalho e na rua o uso de expressões como "estou sem braço para fazer isso", "a economia está autista" e a proliferação de insultos credenciados como graça contra pessoas com nanismo, amputadas ou cegas. Ainda não há dados consolidados da Justiça Eleitoral sobre o comparecimento dos eleitores com mais de 70 anos, para os quais o voto é facultativo, mas, em termos históricos e sociais, a marca foi produzida. Em um país que envelhece de forma acelerada, registrar e observar esse movimento é fundamental. Há algo de especialmente bonito em ver tanta gente mobilizada pela determinação de pessoas que, mesmo diante de dificuldades físicas ou de saúde, fizeram questão de participar de uma decisão coletiva. Mais bonito ainda seria se esse olhar atento, capaz de reconhecer esforço, dignidade e pertencimento, acompanhasse também os milhões de brasileiros que enfrentam obstáculos semelhantes para trabalhar, estudar, passear ou simplesmente sair de casa. A eleição tornou extraordinário, aos olhos de muitos, aquilo que para outros é apenas a rotina. Talvez uma das boas heranças desse domingo seja justamente a possibilidade de prolongar essa sensibilidade. Que a mão estendida para ajudar alguém a alcançar a urna não desapareça diante da próxima escada, e que a indignação contra uma ofensa à diferença na mão sobreviva às disputas partidárias. Afinal, a cidadania que tanto emocionou o país não se exerce apenas de quatro em quatro anos. Ela precisa encontrar passagem todos os dias. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Como a m�o de Lula, o capacitismo e os velhos marcaram as elei��es
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