Com vit�ria de Lula, Brasil freia onda pr�-Trump na Am�rica Latina

Com vit�ria de Lula, Brasil freia onda pr�-Trump na Am�rica Latina

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais deste domingo (25) representa um freio à onda de direita e ao projeto do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na América Latina. Com seu quarto mandato garantido, o petista se mantém como um dos únicos líderes de esquerda entre os latino-americanos —e o mais influente. Na prática, a vitória petista vai exigir pragmatismo nas relações com os demais países e em órgãos multilaterais e funcionar como um contraponto aos planos do republicano para a região, uma das prioridades de Washington. A situação já vinha se desenhando nos últimos anos. A história política da América Latina após as ditaduras da segunda metade do século 20 foi um pêndulo. Mais recentemente, após um repique da direita nos anos de 2010, a região chegou a ter cinco de suas principais economias governadas pela esquerda em 2023 (Argentina, Brasil, México, Colômbia e Chile). Este ano, porém, duas vitórias consolidaram o que vem sendo chamado de "onda azul" —Abelardo de la Espriella na Colômbia e Keiko Fujimori no Peru. No teste deste domingo, o Brasil ficou de fora da tendência, mas está acompanhado apenas de Uruguai, Guiana e Venezuela (hoje sob tutela dos Estados Unidos) na América do Sul. No restante da região, há México, Cuba, Guatemala e Nicarágua (este último, rompido com Brasília). Cercanías A newsletter da Folha sobre América Latina, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo Nas relações bilaterais, a consequência desse cenário no terceiro mandato de Lula variou conforme o líder. Em uma ponta, há presidentes de direita como José Antonio Kast e Santiago Peña, de Chile e Paraguai, respectivamente. Com o primeiro, Lula teve dois encontros, e, após o primeiro, o chileno afirmou a jornalistas que "cada um busca o melhor para seus compatriotas, além de qualquer diferença ideológica". Do segundo, o petista ouviu na Cúpula do Mercosul, em junho: "Celebro sua experiência e reconheço publicamente a admiração que tenho pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva". O oposto ocorre com líderes como Espriella, da Colômbia, e Javier Milei, da Argentina. O colombiano, que declarou apoio a Flávio na campanha, afirmou após o primeiro turno que "a verdadeira mudança é derrotar a esquerda". Já o argentino, que tem um histórico de ofensas a Lula, chamou o presidente brasileiro de "lixo socialista" no lançamento da candidatura do senador em São Paulo, no final de julho —uma crise que semanas depois desembocou no inédito rebaixamento das relações entre os dois países. Em comum aos quatro e a outros líderes de direita, porém, todos mantêm boas relações com a Casa Branca sob Trump, que celebrou em um encontro com os aliados em setembro, em Nova York. "Acho que meu placar é de 9 vitórias em 9 disputas: todos que apoiei venceram. Estamos vencendo muito. Estou com vocês até o fim e farei tudo o que estiver ao meu alcance", afirmou Trump na ocasião. "Para essas relações, provavelmente não haverá espaço para maiores mudanças. A política externa brasileira deve continuar pragmática, evitando tensionamentos", afirma Tullo Vigevani, cientista político e professor da Unesp (Universidade Estadual Paulista). "A expectativa é que o governo Lula continue a política latino-americana que desenvolveu neste seu terceiro mandato." O petista atuou para fortalecer órgãos multilaterais desde 2023. Uma das primeiras ações de seu governo na agenda internacional, por exemplo, foi retornar à Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos). O grupo não se reuniu de 2018 a 2020, ano no qual o Brasil, sob o governo de Jair Bolsonaro, saiu do grupo. O atual presidente foi também a todas as cúpulas do Mercosul, bloco econômico que reúne Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Bolívia. Em comparação, Bolsonaro, que em sua campanha em 2018 não via o grupo como prioridade, enviou representantes em dois encontros ao longo de seu mandato, entre 2019 e 2022. Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo O petista encontrou um cenário mais hostil nesses espaços, no entanto, o que deve se agravar agora. Desde que o multilateralismo passou a ser colocado à prova nos últimos anos, temas que outrora levavam a consenso entre os países, como aqueles relacionados a gênero e raça, tornaram-se polêmicos. Na declaração final do encontro do G20 no Rio de Janeiro, por exemplo, a Argentina, que em março saiu da OMS (Organização Mundial da Saúde), inicialmente se opôs a um trecho que mencionava "total compromisso com a igualdade de gênero e o empoderamento de todas as mulheres e meninas" e a outro que falava em "igualdade de gênero no trabalho". Alguns desses órgãos regionais, como a OEA (Organização dos Estados Americanos), sofrem com esvaziamento político, diz Vigevani. "Há temas que certamente perderão espaço, mas as próprias organizações estão sendo enfraquecidas", afirma. O Brasil deve também se manter fora do Escudo das Américas. A aliança de 15 países, a maioria sob governos conservadores, foi criada pela gestão Trump com o objetivo declarado de combater o narcotráfico e a interferência estrangeira na região —uma referência velada a adversários dos EUA, como Rússia e China. "Com o desenho que se apresenta, o governo Lula terá dificuldades crescentes não com os vizinhos, mas com os EUA. A não ser que as midterms coloquem um freio à ação agressiva dos EUA em relação a alguns países da América Latina", completa Vigevani, em relação às eleições americanas de meio de mandato, que ocorrerão em novembro.

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