"Minha impressão, como leitor, é que se instalou um verdadeiro monotema", escreveu Felipe Lion, 52, sobre a cobertura das últimas semanas. Para ele, "mesmo admitindo toda a relevância dos fatos envolvendo o Supremo Tribunal Federal", outros temas importantes acabam em segundo plano. "Não pretendo minimizar a importância nem sugerir que eventuais relações impróprias, conflitos de interesse ou questões institucionais deixem de ser investigados e expostos. O que me preocupa é outra coisa: a desproporção que a cobertura parece ter adquirido e o tom com que ela vem sendo conduzida." À beira das eleições, o STF dominou o noticiário e a própria disputa eleitoral. Para fins de contabilidade, das 20 capas de jornal impresso que a Folha já produziu neste mês (incluindo a deste domingo), 11 tinham manchetes dedicadas ao STF. Isso não significa que a corte estivesse ausente das outras 9, é claro, só não era o destaque principal. No noticiário online, o Super Trunfo do STF se impôs de forma ainda mais brutal, com solavancos e dinâmica de reality show. A impressão relatada por Felipe, porém, gera um efeito curioso. Se por um lado ninguém é doido de negar a gravidade do que se passa na corte superior, às vezes parece mesmo que as capas pretas ocupam espaço de outras coisas. Que coisas? Nos nove dias em que o STF não esteve nas manchetes, a Folha as dedicou a emendas, pesquisa Datafolha, boom de fundos obscuros à moda Master, vitória da extrema direita na Alemanha, bets/inadimplência, infraestrutura. Dos três assuntos restantes, um era fruto do próprio STF, com a queda do sigilo do caso Master ("Flávio Bolsonaro negociava recursos para 'Dark Horse' com Vorcaro, e Eduardo era gestor do dinheiro, diz PF"). Outro foi o anúncio de que Lula reajustaria o Bolsa Família, em parte interpretado também como reação à guerra do STF. E outro foi a prisão do presidente que passou mais tempo à frente da Câmara dos Vereadores de São Paulo, Milton Leite (União Brasil). O caso que cerca o hoje ex-vereador talvez ajude a ilustrar como assuntos aparentemente locais e menores precisam ser olhados com ao menos um pouco da paixão dedicada à estridência VIP e aos temas nacionais. A ordem de prisão era parte de uma operação contra a presença do PCC na operação do transporte público paulistano. Investigações apontam o político como verdadeiro dono da Transwolff, empresa que operou linhas de ônibus municipais de 2015 a 2024, quando foi alvo de outra operação por suspeita de elo com a facção criminosa. Segundo a Folha, a prisão foi baseada sobretudo em menções a Milton Leite feitas por terceiros, entre eles outros suspeitos de integrar o PCC. O ex-vereador nega "veementemente" qualquer conexão e afirma que sua ligação com o setor de transporte era apenas institucional e a pedido do então prefeito Bruno Covas, que governou de 2018 a 2021: "Não há nenhuma hipótese de eu ser dono [da Transwolff]. Nunca tive um carro". O repórter Carlos Petrocilo mostrou, porém, que há registros de sua ação em favor das cooperativas de ônibus já em 2001. Naquele início dos anos 2000, a gestão Marta Suplicy (PT) reorganizou o serviço de transporte, o que incluiu a regularização das vans clandestinas que haviam se multiplicado na década anterior. A partir disso, os "perueiros" formaram cooperativas, e algumas delas acabaram virando empresas, como a Transwolff. Só que as vans ganharam presença e dinheiro nas ruas enquanto o PCC também crescia, nos anos 1990. A facção, segundo o promotor Lincoln Gakiya, comprou vans e entrou nas cooperativas, o que a misturaria de vez ao sistema formal da cidade. Também há décadas as operações se repetem. Outro vereador, Senival Moura, saiu da prisão no mês passado após um habeas corpus. Alvo de outra apuração sobre transporte e PCC, ele havia sido detido em junho. O episódio o levou a pedir afastamento do PT. A operação que mirou a Transwolff em 2024 ocorreu poucas semanas depois do registro do dia de fúria de um passageiro —quebrando e arremessando a mesa do fiscal depois de ter passado três horas à espera de um ônibus da empresa no terminal Varginha, extremo sul da cidade de São Paulo. A notícia rodou, o prefeito Ricardo Nunes pediu desculpas, vieram operações policiais. (Há dois terminais Varginha desde abril, aliás, quando o homônimo do cenário da quebradeira foi inaugurado com a presença de Nunes, do governador Tarcísio de Freitas e dos filhos, também políticos, de Milton Leite.) Se não tiver quebra-quebra, os jornais acabam olhando muito pouco para temas que soam comezinhos, caso da resiliente má qualidade do transporte público na cidade da sede da Folha. Quando muito, ônibus recebe alguma atenção nessas crises sazonais com políticos ou em aumento de passagem. Vez ou outra, se aparecer queimado. Por óbvio, o viés elitista que normaliza a precariedade do deslocamento na cidade não afeta apenas quem encara a catraca. Esbarra em custo de vida, mortes no trânsito, questões ambientais e tantas outras que acabam convenientemente compactadas e escondidas em boletins sobre recordes de centenas de quilômetros de congestionamento. Perto dos superlativos do STF, o terminal Varginha pode parecer pouca coisa, mas olhar com mais atenção para o que acontece ali talvez ajude a evitar os estragos de sequências de erros subestimados. O rastro do PCC no caráter disfuncional do transporte paulistano é parte do pacote que alçou a violência a principal preocupação dos eleitores brasileiros. E é possível que, também entre os leitores, esse e outros temas do dia a dia ocupem lugares parecidos. Newsletter da Ombudsman Inscreva-se para receber no email a coluna que discute a produção e as coberturas da Folha LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Barulho no STF e sil�ncio nos �nibus do terminal Varginha
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.