Em 2004, aos 15 anos, o músico Rodolfo Salgueiro, da banda paraibana Papangu, frequentava um fórum no Orkut sobre rock progressivo quando encontrou o clássico disco "Ave Sangria", da banda pernambucana de mesmo nome. Salgueiro, à época um adolescente formado pela música popular brasileira e pelo metal pesado, diz que estranhou o disco de primeira, mas bastou um pouco de insistência para entender por que era considerado tão influente. Neste sábado (26), Ave Sangria e Papangu se apresentam juntos no Circo Voador, no Rio de Janeiro, em uma programação que celebra a caminhada da psicodelia nordestina. Com décadas de diferença entre a formação das duas bandas –o Papangu existe desde o final dos anos 2010–, a conexão entre o som dos grupos existe no encontro do rock psicodélico com ritmos típicos do Nordeste do país, como o forró e o baião. "A primeira música que me fisgou foi 'Seu Waldir'", diz Salgueiro sobre a faixa que levou à censura do disco da banda em 1974. "E daí eu embarquei nesse 'udigrudi', no rock psicodélico e progressivo pernambucano, Lula Côrtes, Zé Ramalho." "Udigrudi" —o "underground" abrasileirado— é o nome que se deu a um conjunto de manifestações artísticas que aconteceram em Recife entre os anos 1970 e 1980, a mais forte delas sendo a música psicodélica feita por, além do Ave, Côrtes e Zé Ramalho, Alceu Valença, Marconi Notaro, e outras dezenas de artistas. "Nós não fazíamos a menor ideia de que estávamos fazendo algo psicodélico. Fora as referências musicais daqui —o xote, o baião, o maracatu—, eu estava ouvindo Beatles, Led Zeppelin, Jimi Hendrix. Todos têm uma pegada psicodélica, mas, na época, eu não me atentava a esse detalhe. Essa fusão foi instintiva", diz Marco Polo, vocalista do Ave Sangria desde sua gênese. O álbum de estreia do grupo durou pouco mais de um mês nas lojas antes de ser censurado pela ditadura militar. "Seu Waldir" foi acusada de "incentivo à homossexualidade" pelo regime. Em março deste ano, o grupo se tornou a primeira banda a ser anistiada e receber uma indenização do governo brasileiro pelas perseguições na ditadura. A reparação é bem-vinda, diz Polo, mas não muda o impacto que a censura teve na carreira da banda e na vida de seus integrantes. "Foi um tranco muito grave, entramos em depressão", afirma o músico, que voltou ao jornalismo após o fim da banda. Mas a severidade da censura não foi o suficiente para amortecer completamente o impacto da influência do Ave Sangria, que foi redescoberto mais tarde por outras gerações e voltou a fazer shows em 2014, impulsionado pelo aniversário de 40 anos do clássico. Rodolfo Salgueiro e Pedro Francisco, que entraram no Papangu depois do lançamento do primeiro álbum da banda, "Holoceno", de 2021, dizem que a influência do "udigrudi" foi fundamental para os caminhos que o grupo, antes principalmente influenciado por metal pesado, tomou dali em diante. "Já tinha, no 'Holoceno', um pouco de nordestinidade, mas, quando entramos na banda, foi a oportunidade de explorar isso ainda mais. Quando começamos a rodar ao vivo e executar o disco, a gente descobriu que a banda tinha uma linguagem específica para o palco." Além dos clássicos compositores pernambucanos, Salgueiro e Francisco também citam a influência de bandas paraibanas para a gênese de seu som. "Paraíba e Pernambuco compartilham essa influência do psicodélico, mas eu gosto de dizer que Pernambuco foi mais bem-sucedido em publicizar seus artistas e deixá-los conhecidos por todo o Brasil", diz Salgueiro, que cita artistas como a banda Jaguaribe Carne e os compositores Escurinho e Chico César, além de bandas mais recentes como o grupo Augustine Azul, entre as influências no som progressivo do Papangu. Para denominar o som que o grupo faz, o quinteto adotou o termo "rock troncho", que é um rock que "não se encaixa, é torto, é quebrado", segundo Salgueiro. A expressão abarca, também, outros nomes da nova cena paraibana que combinam psicodelia e rock com influências da música tradicional nordestina, como Hajem Kunk —com membros em comum com o Papangu— e Tela Azzu. Após voltar de uma turnê pela Europa, o Papangu apresenta no Circo Voador, pela primeira vez no Brasil, seu terceiro álbum "Celestial" na íntegra. Também será a primeira apresentação do Ave Sangria na cidade do Rio de Janeiro –no estado, o grupo só se apresentou na região serrana. Mas, segundo Marco Polo, a arte nordestina já não se vale tanto da aprovação de outras regiões do Brasil. "O preconceito ainda existe. Mas tudo bem. A gente tem Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues. Deixa para lá, né?"
Ave Sangria e Papangu unem gera��es de rock psicod�lico nordestino no Circo Voador
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