'Assalto � Brasileira' se designa a uma divers�o sem maior compromisso

'Assalto � Brasileira' se designa a uma divers�o sem maior compromisso

Desde sempre, o projeto de José Eduardo Belmonte foi fazer um cinema "normal", quer dizer, dentro das normas. Não se trata de inventar, mas de colocar em prática as velhas regras do "bom cinema", em linhas gerais da estética hollywoodiana. E já o título "Assalto à Brasileira" enuncia essa aspiração a uma bilheteria robusta. Ao primeiro olhar, pensa-se em uma comédia, o que já seria meio caminho andado em direção ao espectador do filme popular entre os espectadores brasileiros. E qualquer coisa "à brasileira" designa algo improvisado ou malfeito. É justamente disso que o filme procura escapar. Para começo de conversa, não é uma comédia, mas um policial, em que um grupo de assaltantes invade uma grande agência bancária em Londrina, 1987, e faz um monte de reféns enquanto espera que as autoridades providenciem um modo de eles escaparem dali em segurança. A trama é bem tradicional, inclusive pela presença de um mediador, no caso um jornalista, papel de Murilo Benício, que se encontra por lá por acaso no momento em que as coisas se desencadeiam. Existe humor no meio, e vem dos criminosos. Eles não têm nenhuma experiência no ramo de assaltos a banco, exceto, provavelmente, pelo que aprenderam nos filmes americanos. Os gestos básicos são claros e incisivos. Mas, depois que entram e botam as pessoas no chão, o que fazer? Esperavam encontrar uma fortuna nos cofres, mas ela não está lá. O carro-forte que levaria as cédulas ainda não tinha chegado. E assim por diante. Mas o aspecto burlesco é sempre controlado. Vigora o habitual, coronhadas em um, ameaças a outro etc. Alguns momentos são significativos. Lá pelas tantas, reféns e bandidos estão famintos –a ação vai durar o dia inteiro. É preciso pedir uns sanduíches. Quase começa alguma amizade entre os diversos grupos. Para um dos assaltantes, o principal é comer o sanduíche de carne assada. É importante atentar à data. O ano era 1987. O país recém-democratizado, muitas expectativas frustradas, inflação disparada. A carne assada parecia ser o paraíso para o jovem assaltante, algo que justificava todos os riscos que corria. Uma parte desses riscos vinha deles mesmos, aliás. Por exemplo, quando um deles entende desligar a central telefônica, quase causa um incêndio no prédio. Dramaticamente, o filme coloca em oposição o jornalista ao chefe dos policiais militares, que não sabe muito bem o que fazer e recorre ao secretário da Segurança, que só planeja despropósitos. O jornalista acaba mesmo como o herói. O sujeito que ensina a mais ou menos todos os envolvidos a proceder para que o assalto não degringole. A principal força, no setor de argumento, está bem ligada à situação social daquele momento. Os bancos eram vistos como os grandes vilões da história, o que justificava o assalto. Esse tipo de ação não era feita mais por ativistas políticos, nem existiam ainda as chamadas facções. Daí se aceitar o amadorismo dos rapazes —há mesmo os que vêm de ônibus para o assalto— outra notação no registro cômico. Em contrapartida, o tanto de populismo que entra, com os bandidos simpáticos que chegam a justificar o roubo pela situação social do país, pode ser sentido como uma espécie de demagogia, menos dos ladrões do que do filme. Apesar do que o título "Assalto à Brasileira" possa sugerir, com respeito, às nossas incapacidades ou deficiências, tudo aqui parece bastante organizado e planejado. No todo, Belmonte entrega um produto digno, incapaz de afetar em nada qualquer tradição cinematográfica, mas capaz de satisfazer o espectador que busca uma diversão sem maior compromisso. Se conseguirá chegar a esse espectador, é outra história.

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