Disciplina significa que, mais cedo ou mais tarde, ideias economicamente inviáveis fracassam. Pluralismo significa que muitas ideias diferentes são testadas, com a economia produzindo incessantemente novos experimentos. Ainda assim, é justo perguntar: quanto pluralismo a economia moderna realmente nos oferece? De certa forma, é uma pergunta tola. Em seu clássico contemporâneo "The Origin of Wealth" (2006), o economista e teórico da complexidade Eric Beinhocker estimou que pelo menos 10 bilhões de produtos e serviços distintos estavam disponíveis em uma grande economia urbana como a de Nova York, em comparação com algumas centenas à disposição de uma sociedade tradicional de caçadores-coletores. A variedade é espantosa. Alguns diriam que chega a ser excessiva.E, no entanto, não é comum ouvirmos a queixa de que todos os lugares parecem iguais? Caminhe por uma rua comercial em Manchester ou Londres, Munique ou Copenhague, e as semelhanças serão tão marcantes quanto as diferenças. As grandes marcas estão por toda parte —e não apenas as clássicas, como McDonald’s e Starbucks. Redes mais recentes, como Five Guys e Blank Street, parecem se espalhar com uma velocidade impressionante. As opções independentes também são um tanto parecidas: cada vez mais, os cafés hipsters parecem ter sido montados a partir do mesmo kit pré-fabricado. Até a cornucópia de conteúdo digital é filtrada por algumas poucas plataformas: Audible para audiolivros, Spotify para música, YouTube para vídeos e Kindle para livros digitais. Talvez não devêssemos reclamar disso. Andy Warhol celebrava esse fenômeno: "Você sabe que o presidente bebe Coca-Cola, Liz Taylor bebe Coca-Cola e, imagine só, você também pode beber Coca-Cola... Todas as Cocas são iguais e todas as Cocas são boas". Ainda assim, "todas as Cocas são iguais" dificilmente é uma manifestação do glorioso pluralismo. Essa aparente monocultura reflete uma conspiração corporativa, um nivelamento dos nossos próprios gostos ou algum processo mais sutil em ação?Uma resposta vem da cientista de dados Lauren Leek, que recentemente procurava apartamento para alugar em Haia. "A cada apartamento que eu via na tela, em uma cidade que mal conheço, tinha a sensação de já conhecê-lo: o mesmo piso de parquet restaurado, as mesmas torneiras em preto fosco, a mesma planta em vaso, com aspecto selvagem, no mesmo peitoril", escreveu ela. "O mesmo acontece com o café perto de todos os lugares onde já morei: flat white, tijolos aparentes e leite de aveia como padrão". Era como se "todos os lugares estivessem convergindo para os mesmos poucos modelos, e eu fosse exatamente o tipo de pessoa para quem esses modelos foram otimizados". Uma possibilidade é que Leek esteja em sua própria bolha perfeitamente construída, vendo exatamente o que deseja alugar, comprar e beber —e satisfeita o bastante com os resultados, ainda que sejam um pouco inquietantes. Se deixasse de lado o que o celular lhe recomenda, encontraria muitas opções bastante diferentes. Mas talvez o filtro de personalização não esteja apenas moldando o que Leek vê, e sim o próprio mundo. Leek tem em mente um algoritmo simples: "prever o que as pessoas querem, mostrar mais daquilo, observar o que escolhem, atualizar". Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. Isso poderia descrever o YouTube ou o Spotify, mas também o mundo físico: se a Gail’s ou a Pret A Manger usa um algoritmo para decidir onde se instalar, e o algoritmo gera uma lista de ruas que parecem apropriadas para ter uma Gail’s ou uma Pret, é fácil perceber como todos os lugares começam a parecer iguais. Esse processo pode produzir uma espécie de ciclo de retroalimentação convergente: as previsões algorítmicas uniformizam o mundo. Isso, por sua vez, facilita para o algoritmo prever o que as pessoas farão. E, quanto melhor for a previsão do algoritmo, mais semelhante tudo se torna. A forma mais simples dessa falha de modelo seria uma reprodução automática do YouTube que direcionasse você para um vídeo ligeiramente mais popular, semelhante ao que acabou de assistir. Depois, por sua vez, para outra opção um pouco mais popular. Deixe o ciclo rodando e, no fim, toda reprodução automática será um Baby Shark repetido infinitamente, o buraco negro cultural cuja atração gravitacional não deixa nada escapar. O YouTube, é claro, tenta evitar isso. Há um risco no sentido contrário, no qual cada recomendação fica mais provocativa e extrema. Esses são problemas técnicos difíceis; nem sempre é fácil ser um senhor supremo dos algoritmos.Em última análise, porém, não devemos culpar automaticamente o algoritmo. Algoritmos podem ser alterados se não estiverem produzindo os resultados desejados. O dilema mais profundo aqui é antigo: as empresas devem se ater a uma fórmula comprovada de sucesso, arriscando perder algo ainda melhor? Ou explorar o desconhecido? Não são apenas empreendedores e gestores que precisam lidar com esse dilema entre "explorar e aproveitar". Todos nós precisamos. Na hora de decidir entre McDonald’s e Blank Street, compre um ingresso para mais um filme da Marvel e você terá quase garantido certo nível mínimo de qualidade. Mas arrisque-se —em um bistrô independente, um filme de arte, um vinho local— e talvez encontre algo mais do que bom. Ou pior. Quanto menos dispostos estivermos a correr riscos, mais opções seguras provavelmente nos serão oferecidas. A escolha depende do gosto de cada um, é claro, mas também de algumas variáveis bem conhecidas. O horizonte de tempo importa. Se você estiver visitando um lugar novo por três dias e encontrar um ótimo restaurante, talvez seja uma boa ideia continuar indo lá. Se ficar na cidade por meses —ou anos—, vale a pena ampliar a busca, ainda que provavelmente tenha de engolir alguns cardápios medonhos. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. O custo da experimentação também importa. Aspirantes a escritor podem testar todo tipo de coisa no Substack sem pedir a editoras, leitores ou a si mesmos que assumam o risco envolvido em um livro completo. Os Dan Browns e as Sarah J. Maases do mundo talvez prefiram continuar escrevendo, imprimindo e vendendo em um formato que os leitores comprovadamente querem comprar. Se a variedade da economia moderna realmente diminuiu, isso se deve ao fato de que o equilíbrio entre explorar novas opções e aproveitar receitas antigas mudou, seja para as empresas, seja para nós, consumidores. Por que isso teria acontecido? Certamente não porque experimentar ficou mais caro. E tampouco porque os horizontes de tempo sejam curtos, já que as taxas de juros reais, mesmo agora, continuam abaixo dos níveis das décadas de 1980 e 1990. Talvez, então, a pergunta parta de uma premissa falsa. Talvez a economia moderna seja mais diversificada do que nunca. Espero que sim. Porque, se não for, a explicação mais plausível para estarmos cercados de marcas conhecidas e estilos padronizados é simplesmente que estamos recebendo exatamente o que queremos. Talvez nós, como Warhol, estejamos encantados com o fato de que todas as Cocas são iguais —e todas as Cocas são boas.
A economia moderna est� um pouco... igual demais?
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.