2� turno foi plebiscito sobre o bolsonarismo, diz colunista da Folha

2� turno foi plebiscito sobre o bolsonarismo, diz colunista da Folha

O primeiro turno foi um plebiscito sobre o lulismo; o segundo, sobre o bolsonarismo. É o que defendeu a jornalista e colunista da Folha Mônica Bergamo, em debate na noite deste domingo (25), em transmissão ao vivo da TV Folha. Ela conversou com o jornalista Fábio Zanini, editor da coluna Painel, e o cientista político Rubens Figueiredo. O encontro tinha sido marcado para discutir o futuro do Congresso, mas, diante da vitória de Lula (PT) nas urnas, acabou se tornando uma conversa sobre o resultado da eleição —e, a partir daí, a possível relação do novo governo petista com o Legislativo. "O primeiro turno foi um plebiscito sobre o Lula. E o segundo turno foi um plebiscito sobre o bolsonarismo. Metade do país tinha dito não para Lula. Se Flávio ganhasse, já seria por uma margem mínima", disse Bergamo. "É um resultado mais contundente que o de 2022, que já foi muito dividido." Para a colunista, o eleitor brasileiro mostrou uma resistência a entregar o que poderia ser um poder excessivo nas mãos da família Bolsonaro. Depois do primeiro turno, os bolsonaristas já tinham conseguir sua presença na Câmara e no Senado. E, além disso, se tivesse sido eleito, Flávio poderia escolher pelo menos três novos ministros para o STF (Supremo Tribunal Federal). "A realidade então seria eleger a família Bolsonaro para comandar a Polícia Federal, ter maioria no Supremo, mandar no governo de São Paulo, mandar no Rio de Janeiro… O poder dos governadores de São Paulo e do Rio vem da família Bolsonaro. Seria um poder muito grande e, na última hora, uma parte do eleitorado não quis dar isso ao Flávio", disse ela. Já Zanini ressaltou o aspecto histórico da eleição do petista para um quarto mandato. Se a vitória não é gigante em termos numéricos, não se pode minimizar a relevância política dela, afirmou. "Os números não dizem tudo. O Lula que já tinha sido o primeiro a derrotar um presidente no cargo, em 2022, é o primeiro a virar o jogo do primeiro para o segundo turno. E em um cenário que é muito favorável para a direita. O clima todo era de uma derrota dele", afirmou Zanini. "Ele conseguiu reverter isso com a rua e com uma campanha bem-feita. Escantearam os paulistas e sulistas do PT, que só perdem." A questão do novo mandato petista vai ser como governar em um cenário tão adverso. Zanini aposta que, com a expansão de sua bancada, vai virar uma questão de honra para os bolsonaristas eleger um presidente seu para o Senado. "O fato é que o bolsonarismo tem muita força política. E eles vão querer dar o troco. Quais os trocos possíveis? Um deles é o Senado. Vão com o ímpeto maior para conquistar a presidência da casa. E acho que não vão desistir do projeto de impeachment de ministros do STF", afirmou Zanini. Bergamo tentou interpretar o aparente paradoxo de o eleitor ter escolhido Lula como presidente ao mesmo tempo em que deu sinal verde para uma avanço da direita no Legislativo e em governos estaduais. "O Lula é a maior liderança da Nova República. E essa eleição poderia ter enterrado de vez a Nova República", disse ela. "O eleitor mantém o Lula como sua principal liderança, mas entregou um Senado e uma Câmara de ruptura com essa linha do tempo. Isso vai ter que ser analisado por cientistas políticos e historiadores. Vai ser uma ruptura, mas uma quebra que não será tão forte quanto seria uma eleição do Flávio." A repercussão dos resultados continuou no debate seguinte da TV Folha. Além de Bergamo, o encontro contou com o jornalista Marcos Augusto Gonçalves, editor da Ilustríssima e colunista do jornal, e o doutor em filosofia e colunista do jornal Wilson Gomes. Eles foram entrevistados pelo repórter especial Fernando Canzian. A conversa começou destacando a queda recorde da abstenção em relação ao primeiro turno. Essas taxas, junto a de votos inválidos, atingiram os níveis mais baixos desde 2002, ano em que a urna eletrônica foi universalizada no país. "É a primeira eleição em que a esquerda tem uma performance digital competitiva com a direita. Pela primeira vez vimos a direita aprendendo a mexer com essas ferramentas, e isso tende a ser uma virada de chave. A esquerda se torna mais competitiva no território digital", afirmou Gonçalves. Para Wilson Gomes, os resultados de Flávio Bolsonaro no primeiro turno reativou um sentimento antibolsonarista que trouxe a virada para Lula. "O voto proporcional segue sua próxima lógica. No Legislativo foi uma derrota pesada para o lulismo, mas outra coisa é a eleição para o Executivo. Não sei se as pessoas usam uma coisa para temperar a outra. Diria que as pessoas se assustaram um pouco. A vitória surpreendente do Flávio no primeiro turno pode ter reativado a memória política do que foi o bolsonarismo", disse Gomes. Enquanto os resultados ainda serão objeto de análises, a aposta de Bergamo é que o novo mandato de Lula será diferente dos anteriores, o que abriria espaço, ao menos em tese, para que o petista esteja mais aberto a um ajuste fiscal mais ambicioso — uma pauta defendida para conter a elevação de gastos públicos em proporção maior do que o crescimento da economia brasileira. "O Lula não é mais candidato à reeleição. Não sei se ele consegue escapar desse ajuste agora. Isso pode fazer ele aceitar negociar alguns itens, mas ele precisa acreditar que isso vai gerar riqueza e estabilidade econômica até o fim do governo dele", disse Bergamo. "Acredito que o governo Lula não vai ser igual ao outro. Acho que há uma disposição dele de mudança. Ele quase perdeu a eleição."

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