Zuca Sardan, bardo que curava o duodeno, zoou o sublime at� tomar tombo

Zuca Sardan, bardo que curava o duodeno, zoou o sublime at� tomar tombo

Zuca Sardan era uma farpa no assoalho enceradinho das letras bestas. Começou a fazer poesia quando Jeová rascunhava a Bíblia e a baleia de Jonas era uma sardinha. Tomou um tombo e morreu agora, no dia 6 de agosto, em Hamburgo, na Alemanha. Tinha vetustos 93 anos. Legou milhares de poemas e desenhos que tendem à patuscada, ao passado presenteável, à autoimolação de auto-de-fé, ao vazio —e o vazio não estava nem aí para ele: "Dos Sete Pilares da Sabedoria sobraram seis miragens, cinco palmeiras, quatro odaliscas, três tamborins, duas ventarolas, um siroco... zumbindo". Assim sintetizou uma corista, mas de coro grego: lê-lo é estar subitamente acompanhada de Adoniran Barbosa e Schopenhauer. Zuca revidava: "Das Sete Quimeras sobraram seis calcinhas bordadas, cinco garrafas de champanhe, quatro rolhas, três garçons, duas bandejas, uma cartola... furada". Sua obra, "apud" ele mesmo, está cheinha de "produtos de alto valor analgésico e desintoxicante, recomendados pelo médico para pessoas fracas do estômago —ou do duodeno—, convalescentes, crianças. Isentos, rigorosamente, de palavrões mais abelhudos, não assustam as donzelas". De pia batismal, Zuca Sardan é Carlos Felipe Alves Saldanha, carioca, filho de um arquiteto, pintor e cupincha de Niemeyer e Lucio Costa. Desembestou a desenhar aos cinco anos e não parou mais, mas empacou no estilo antes de pôr calças compridas. Seu traço era "estuDADAmente" pueril, impolido, burlesco —"dada" em maiúsculas, faz favor, a razão será presto explicada. O que lhe restou da infância querida que os anos não trazem mais? "Dos Sete Pecados sobraram seis remorsos, cinco ladainhas, quatro procissões, três suspiros, duas moscas, um toco de vela... apagado." Essa vela velha, quiçá, seja uma cabalística alusão ao diploma de arquiteto, profissão que, para gáudio das musas, desdenhou. Ao sentir o borbulhar do gênio, Zuca cogitou ser um bardo romântico e engajado, beber perfumes na flor silvestre que embalsama os ares; proclamar, qual um poeta do blecaute, que faz escuro, mas eu canto, a manhã vai chegar, companheiro, vai ser lindo ver o mundo mudar. O surto participativo passou num "zás-traz". Mas, ao fazer 80 anos, assediava ainda a Glória e a Posteridade, "duas irmãs bem diferentes". "A Glória tem cachos dourados e a Posteridade, garboso bundão. A Glória é bela e volúvel, gosta de me esnobar. Mas a Posteridade, dama mais séria, já me telefonou várias vezes. E eu lhe digo: ‘aguenta mais um pouco, Popó’". Órfão da versalhada condoreira, Zuca achou-se na vanguarda dadá, inventada às 18 horas de 6 de fevereiro de 1916, no Café de la Terrasse, em Zurique. Contra o kaiser com pompom de plumas no pinico na cabeça, contra o parvo racionalismo grã-burguês, o dadá contra-atacava com Arrelia & Acaso, o bota-para-quebrar de um careca de boné que vivia no vizinho Café Voltaire, Lênin. O Dada pariu o modernismo e imiscuiu-se na poética Pau-Brasil de Oswald de Andrade. Marcou a arte de Jarry a Breton, de Duchamp a Zuca. Sua poesia não comovia as massas, mas amava macarronadas. Não vertia lágrimas de jacaré, embora tirasse tartarugas da cartola. Ele abominava o sublime. Era gracioso, absurdo, enigmático. Com uma mitologia só dele, criou a Gazeta Proleta, na qual zoava o Conde Lotraki, o Capitão Busto, o Professor Fumegas, o Anjo Turbolev, a Cassandra Bolchevique, o Cardeal Sacamuelas, o Gigante Belfedor. Poetava, se pavoneava à mão e enviava a papalva papelada pelo correio a amigos, curiosos, até passantes. Nos anos 1970, floriu a poesia marginal, de mimeógrafo, e foi coroado precursor. A geração do desbunde passou e ele seguiu à margem, enchendo cadernos de garatujas e graçolas. Publicou livros, mas sua obra está imersa num mar de correspondentes. Escreveu: "Se poesia fosse táxi/ já arrancava/ com o leitor pagando bandeira 2". Em sendo assim, foi típico e fez o que fazem os poetas tropicais tópicos: entrou no Itamaraty. De fininho, serviu na Argélia, na República Dominicana, na União Soviética ancestral e sentou praça em Hamburgo, onde morou milênios. Por que na Alemanha? Porque, na infância, ia a Petrópolis, a uma "taverna-cervejaria colossal, cheia de bambuzais, garçonetes catarinas de robustos peitões em decotes de rendas bávaras". De lá mandava quadrinhas, colagens e charges. Em uma Páscoa, veio um cartum em que a mulher de Sócrates ralhava com uma ave troncha: "Bote um ovo ou te quebro os cornos!" E o bípede respondia: "Mas, dona Xantipa, eu sou galo". LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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