Z�lia Amador nos bra�os de Nan�

Z�lia Amador nos bra�os de Nan�

Uma vida longa e uma partida que deixa memórias de quem segue a percorrer sua jornada. Um plantio próspero, uma colheita farta. Um nome e um sobrenome que seguirão sendo ecoados pelos tempos que virão. Conselhos que guiam boas decisões, um solo mais fresco. A sabedoria como um canal dos ancestrais para as gerações que nos sucedem. O canto de África, o cordão de proteção, o açaí, o tacacá e palmas para as divindades. A teia de Ananse. "Oh divina Ananse, presta-me o teu poder, para andar como tu, sobre as águas do rio, sobre as águas do mar. Oh divina Ananse, presta-me o teu poder, para outras histórias tecer, para outras histórias contar. Oh divina Ananse, ajuda-me a desenvolver esta breve aventura...". O fio da aranha sagrada reconstitui a saudade que tanto se quis emudecer. Sobrevivemos e contamos velhas e novas histórias. Seguimos a trilha aberta, andamos muito e temos as lições e ferramentas necessárias para seguir em frente. Quem virá dará mais passos e assim por diante.Zélia Amador de Deus, homenageada há duas semanas nesta coluna, partiu. Voltou ao barro ancestral de sua mãe, Nanã Buruku. Se foi em meio a muito amor, cuidado e gratidão. Alcançou com honras sua missão nessa vida. Seu nome ficará entre nós: nas homenagens, nos ensinamentos, nas conversas de café da manhã. Na memórias de resistência contra a ditadura militar, no orgulho black power. Uma mulher histórica, sobre a qual vocês podem conhecer melhor no documentário biográfico "Amador, Zélia", dirigido por Ismael Carvalho, obra de destaque sobre ela —e de onde surge, na voz da biografada, a oração acima. A Zélia está dedicado um baobá na Universidade Federal do Pará, a sua casa, que, em nota, declarou que a professora é "uma vida que criou raízes". Avenidas, praças e escolas serão nomeadas em sua referência. Filmes, séries e peças de teatro —palco onde brilhou como atriz— seguirão contando sua história. E o Pará sempre será orgulhoso dela. Nas matrizes africanas, a morte tem o seu quê de diferente e talvez isso represente uma outra forma de luto. Em vez de preto, usamos branco. Para além do silêncio, batemos palmas. Relembramos suas histórias, molhamos a terra com saudade e gratidão. A morte é entendida como um processo de reintegração. À pessoa devota à sua orixá a ela se reintegrará. Para uma filha de Nanã, entendo que esse processo assume uma força especial, pois Nanã é representada pelo barro inicial com o qual se fez toda a vida. A orixá é a mais velha de todo o panteão e nas nossas famílias costuma ser associada às figuras das avós, das bisavós. É a senhora dos pântanos, do brejo, da memória mais antiga, onde a vida tem outro compasso de tempo. Sendo assim, uma mulher de Nanã que vive muito e com sabedoria, tornando-se uma grande matriarca, é uma mulher que viveu a força de sua mãe.Ao fim da vida, o acolhimento de volta ao barro fecha o ciclo onde tudo começou. Esse círculo, no qual cabe o mundo dos encontros, é então uma força de transformação no mundo abençoado por Zélia Amador de Deus, de Ananse, de Nanã e de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira do Pará e santa de sua devoção, a quem dedicava um altar na entrada de sua casa. Foi-se uma grande intelectual brasileira. Ao longo dos anos, tive a honra de encontrá-la e de aprender com ela em diferentes ocasiões. Em uma delas, o professor Hélio Santos, liderança histórica do movimento negro brasileiro, organizou a obra coletiva "A Resistência Negra ao Projeto de Exclusão Racial: Brasil 200 anos" (2023), por ocasião dos 200 anos da Independência do Brasil. Tive a alegria de publicá-la pelo selo editorial que então coordenava na editora Jandaíra. Nesse livro, Zélia contribuiu com o ensaio "Independência sem escravidão: como seria?", uma de suas últimas publicações, na qual examinou as estratégias empregadas pelo Estado brasileiro para promover o desaparecimento físico e simbólico da população negra, de suas histórias e de suas memórias. Ao concluir o texto, porém, Zélia não permitiu que a violência tivesse a última palavra, lançando sua própria palavra em direção ao futuro: "e, assim, continuamos resistindo e, embora nossos jovens negros sejam mortos ou encarcerados com frequência, nossa incessante luta há de criar o tempo negro. Um tempo livre do racismo e da discriminação racial". Zélia partiu ciente de que não veria realizado o tempo negro que ajudou a criar, mas deixou conosco os fios, as histórias e as ferramentas para continuarmos a tecê-lo. Quando esse tempo chegar —porque haverá de chegar—, seu nome, Zélia Amador de Deus, estará inscrito nele. Saluba Nanã! LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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