Donald Trump foi esperar Xi Jinping ao pé da escada do avião na base de Andrews, na quarta-feira (23), e preparou para o líder chinês guarda de honra, sobrevoo de bombardeiro e um jantar de gala. Tanta pompa contrasta com o pouco que se produziu —a saber, a extensão por só dois meses da trégua comercial fechada em Busan em 2025 e a ausência de uma comitiva relevante de empresários chineses que traria promessas de investimento Esse descompasso deixa de ser estranho quando se entende que Xi não atravessou o Pacífico atrás de acordos. Segundo fontes na China com quem tenho conversado, o objetivo da visita é menos chegar a anúncios grandiosos e mais verificar o quão firme está a relação com os EUA para suportar uma decisão ainda em aberto. Isso porque, a despeito das expectativas, Xi pode não querer disputar um quarto mandato no 21º Congresso do Partido Comunista no ano que vem. O plano em discussão seria uma transição guiada, na qual Xi entregaria a secretaria-geral do partido a um sucessor (possivelmente o premiê Li Qiang) e depois a Presidência, cargo em grande parte cerimonial, ficando só com a chefia da Comissão Militar Central, o órgão que comanda as Forças Armadas. Sair dos cargos formais sem abrir mão do poder tem longa tradição no partido, a começar por Mao Tsé-tung, que entregou a chefia de Estado a Liu Shaoqi em 1959, depois do desastre do Grande Salto Adiante. Mao manteve a liderança do partido e o comando militar, recuou para o que chamava de "segunda linha" da direção e, de lá, lançou a Revolução Cultural anos depois. Deng Xiaoping foi além, porque nunca ocupou a secretaria-geral, e o único cargo de topo que teve foi justamente o comando militar, repassado a Jiang Zemin em 1989. Jiang repetiu a fórmula ao entregar o partido a Hu Jintao em 2002 e segurar a comissão militar por mais dois anos. É também o comando militar que explica por que Xi se sentiria seguro para dar esse passo agora. Os expurgos dos últimos três anos deixaram a comissão escolhida em 2022 com apenas dois de seus sete integrantes: o próprio Xi e Zhang Shengmin, responsável pela disciplina nas Forças Armadas. O caso mais simbólico foi o de Zhang Youxia, general de família ligada à de Xi desde a revolução, destituído formalmente em agosto. Quem reconstrói essa comissão do zero pode entregar o partido a outro sem temer que os quartéis mudem de lado. Resta o flanco externo, e é nele que a viagem a Washington ganha sentido porque nenhum sucessor quer herdar uma guerra tarifária ou uma crise no estreito de Taiwan. Por isso Pequim insiste desde a visita de Trump em maio na fórmula de uma "relação construtiva de estabilidade estratégica", repetida no comunicado chinês desta quinta. China, terra do meio Receba no seu email os grandes temas da China explicados e contextualizados Mais do que compras de soja, Xi quer saber se o presidente americano mantém congelado o pacote de US$ 14 bilhões em armas para Taiwan que o americano trata como "moeda de troca" e se aparece em Shenzhen para a cúpula da Apec, em novembro. O maior obstáculo à tese é a idade de Li Qiang, que completa 68 anos em julho de 2027, limite que a regra informal do partido usa para aposentar dirigentes. Xi, porém, rompeu essa mesma regra em 2022, e um herdeiro que deve o posto a uma exceção aberta pelo antecessor costuma ser mais dócil. Talvez exatamente o perfil que ele procura. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Xi n�o atravessou o oceano Pac�fico atr�s de acordos com Donald Trump
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