Woke 1 era sobre identidade, Woke 2 � sobre classe e isso � uma melhora

Woke 1 era sobre identidade, Woke 2 � sobre classe e isso � uma melhora

Ainda não se sabe se o prefeito Zohran Mamdani, com seu compromisso com "o calor do coletivismo", dará início a uma nova era de abundância para os nova-iorquinos que estão passando por dificuldades. Mas sua jovem administração já é um presente para um grupo específico: os leitores conservadores do tabloide nova-iorquino New York Post, que estão tendo sua opinião sobre a esquerda reafirmada ao se deleitarem com os estilos de vida privilegiados de alguns dos companheiros de jornada de Mamdani nos Socialistas Democráticos da América (DSA). "Líder anti-ricos do DSA, Gustavo Gordillo, curte a vida em luxuoso apartamento de US$ 1,5 milhão em Nova York, pago pelos pais milionários", estampou o Post no mês passado. Observando que o DSA "vociferava contra a propriedade privada", o jornal deleitou-se com o "paisagismo exuberante" da casa geminada comprada "pela mamãe e pelo papai por meio de uma empresa de fachada". Mais tarde, o Post informou que Gordillo, copresidente do diretório nova-iorquino do DSA, estudou arte e literatura em Yale; que foi demitido de um programa de aprendizagem do sindicato dos eletricistas por não comparecer ao trabalho; e que sua mãe dirige um Porsche prata. Outros alvos fáceis da esquerda para o Post incluíram Tracy Rosenthal, que defende a abolição dos aluguéis e cujo pai é um bem-sucedido produtor musical. ("Radical anti-aluguel e aliado de Mamdani que está ‘ocupando’ imóvel no Brooklyn é nepo baby do Grammy".) O Post classificou Grace Ryan, "uma herdeira de 25 anos de uma fortuna do chocolate, de Ohio", como "uma das integrantes mais descaradas" do DSA por publicar nas redes sociais fotos suas "fumando um charuto em um barco, usando um suéter de US$ 400 da Ralph Lauren com estrelas e listras". Para evidente deleite do Post, Ryan, que trabalhou durante as primárias para um bem-sucedido candidato democrata de esquerda ao Congresso, defendeu-se no X escrevendo: "Tipo, vocês nunca ouviram falar de noblesse oblige?" —a expressão francesa significa que quem tem privilégios também tem o dever de agir com responsabilidade, generosidade e ética perante a sociedade. Esse é um jogo antigo. Desde que Karl Marx contou com Friedrich Engels não apenas para suas ideias sobre o comunismo, mas também com a fortuna de sua família no setor têxtil, esquerdistas têm se alimentado dos ricos, e direitistas têm zombado deles por isso. Desde o início, o socialismo também irradiou, para certos dândis burgueses e adeptos de modismos, um certo glamour subversivo. Socialistas mais rigorosos viram nisso o calcanhar de Aquiles da ideologia. "A pior propaganda para o socialismo são seus próprios adeptos", resmungou George Orwell em "O Caminho para Wigan Pier". O socialista típico era ou "um jovem esnobe bolchevique" ou "um homenzinho certinho de colarinho branco" que tinha "inclinações vegetarianas" e, acima de tudo, "uma posição social que não tinha a menor intenção de perder". Ainda assim, Ryan tem um bom argumento quando fala em noblesse oblige. Ela talvez nunca viva como as pessoas comuns, mas por que isso deveria impedi-la de tentar ajudá-las? Não seria melhor do que a alternativa, uma herdeira do chocolate usando um suéter de US$ 400, indiferente à situação dos americanos menos afortunados, quando não empenhada em prejudicá-los? Aqui, em meio a toda essa encenação, chega-se a algo que talvez realmente importe: uma distinção que começa a surgir entre os dois períodos do ativismo de esquerda que vêm sendo chamados de Woke 1 e Woke 2. Qualquer distinção desse tipo precisa ser vaga e provisória, já que poucos democratas tiveram a decência de repudiar explicitamente as posições radicais que um dia defenderam. Alguns simplesmente deram de ombros diante dos excessos anteriores, como quando a deputada Alexandria Ocasio-Cortez citou outro democrata dizendo "Woke 1 era louco!" e depois riu, como se todos os americanos estivessem por dentro da piada. Outros tentaram redefinir os slogans, insistindo que "desfinanciar a polícia" não significava desfinanciar a polícia. Outros ainda não recuaram; o tempo dirá se eles são a vanguarda ou os últimos resistentes. Ainda assim, em algum momento entre o segundo discurso de posse de Donald Trump, em janeiro de 2025, e a primeira posse de Mamdani, no janeiro seguinte, a esquerda americana começou a mudar seu foco, passando de raça e gênero para classe. Escolha as causas ou os efeitos, sejam as ideias iliberais que saíram em disparada das universidades para as redes sociais; a ascensão de Trump; o movimento #MeToo; ou a morte de George Floyd sob o joelho de um policial em 2020. Tudo isso contribuiu para concentrar a esquerda no racismo e na discriminação de gênero. A identidade tornou-se destino. O branco mais pobre tinha privilégios negados ao negro mais rico. Em teoria, o movimento pela justiça social concentrava-se no policiamento; na prática, tornou-se obcecado por outras preocupações da elite multirracial americana, como a admissão preferencial nas universidades de elite. Para pessoas certinhas de classe média, com empregos de colarinho branco, denunciar privilégios baseados em raça tornou-se uma forma de provar seu grau de esclarecimento; desprezar os deploráveis que votaram em Trump também. Qualquer marxista de verdade teria reconhecido nisso uma tentativa clássica de dividir a classe trabalhadora, mas os líderes democratas abraçaram essa política divisiva. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. NADA A PERDER, EXCETO MAIS ELEIÇÕES Então vieram novos efeitos e novas causas. Kamala Harris perdeu em 2024, e Trump demonstrou apoio crescente entre os eleitores não brancos da classe trabalhadora. Trump reprimiu programas de diversidade, equidade e inclusão, e a Suprema Corte derrubou políticas de admissão universitária que levavam a raça em consideração. Ativistas democratas passaram a se indignar com a injustiça em Gaza, em vez de com a injustiça na própria América. Talvez o mais importante seja que Mamdani venceu com uma mensagem inclusiva sobre tornar a vida mais acessível —assim como fizeram candidatos democratas moderados ao governo da Virgínia e de Nova Jersey. Apesar de todo o embate entre progressistas e moderados, suas agendas se sobrepõem quando se trata do precariado, ainda que não do proletariado. Da Geórgia ao Alasca, os democratas agora são todos populistas econômicos, defendendo salários mais altos, preços mais baixos e cuidados de saúde mais acessíveis. Vítimas e vilões são julgados não pela cor da pele, mas pelo conteúdo de suas contas bancárias. Bilionários são os vilões e, na definição abrangente utilizada em todo o espectro democrata, qualquer pessoa que trabalhe para pagar suas contas pertence à classe trabalhadora. Isso talvez não consiga, no fim das contas, revitalizar os democratas, muito menos salvar os americanos que estão passando por dificuldades. Mas, se conseguir, o partido terá pelo menos alguns jovens esnobes-bolcheviques a agradecer por tê-lo ajudado a se lembrar do tipo de coisa que um dia defendia. Texto do The Economist, traduzido por Júlia Moura e publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com

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