"Um Homem Bom" não é a estreia de Waldomiro J. Silva Filho. O autor, que é professor de filosofia na Universidade Federal da Bahia, tem extensa produção acadêmica que interroga as relações entre a filosofia e a democracia. Temas como a verdade, a razão, o ceticismo compõem um mapa de suas investigaçõese contaminam sua especulação literária desde a publicação, em 2023, de "Os Dias". O narrador de "Um Homem Bom", romance que acaba de ser lançado pela Companhia das Letras, permanece anônimo, um ser desenganado que se confronta consigo mesmo e com o passado de forma incerta. Tendo se engajado na luta armada nos anos 1970, é sequestrado e submetido a longos dias de tortura. Tal como Dostoiévski, sobrevive à terrível experiência de uma simulação de fuzilamento, pairando sobre ele a suspeita de ter delatado seus companheiros desaparecidos pelo regime. Esse é o mínimo núcleo narrativo que aparece disperso por diferentes dimensões temporais, que retomam e ampliam a cada salto as reflexões elaboradas pelo narrador sobre a própria identidade, sobre o mal que assola a máquina do mundo. O poema de Carlos Drummond de Andrade é apenas uma das muitas referências que costuram o texto eivado de menções a músicos populares, como Gilberto Gil e Belchior, e a escritores que apostaram em formas narrativas estranhas, inespecíficas para tematizar experiências-limite como a sobrevivência aos campos de concentração ou a perseguição política. É o caso de Jean Améry e de Vladimir Nabokov. Mas o diálogo inequívoco do empreendimento de Waldomiro Filho é com o escritor alemão W.G. Sebald: "Procurava nas palavras dos outros a sua própria memória, a sua experiência singular, um homem que queria se livrar das suas dores vasculhando as dores alheias". O que o leitor lê são as voltas que o narrador dá em torno das anotações que registra, das reflexões sobre o que escreve. Assim, a narrativa é construída com fragmentos de trechos de ensaios escritos pelo próprio autor, por Renato Lessa, por Améry, por Sebald, além de fragmentos de romances e músicas entremeados aos comentários do narrador, "uma gambiarra com o que estava ao meu alcance", diz a voz narrativa —que, na verdade, é uma elaborada reciclagem dos textos retirados de fontes que tematizam a memória, a sobrevivência, os regimes do Mal, com maiúscula. Tudo a Ler Receba no seu email uma seleção com lançamentos, clássicos e curiosidades literárias São os "tais outros", por meio dos quais a história se conta e mantém uma conversa com estranhos. Apesar disso, a obra não tem nada de uma fragmentação experimental que emperra a leitura. Pelo contrário, passeando pela transcrição dos trechos, o leitor acompanha um "feixe de percepções que vão se amarrando pela linha delicada". Quem já leu alguma obra de Sebald identifica o que poderia sugerir uma espécie de epigonismo: uma forma de escrita entre o ensaio, a reflexão filosófica, uma narrativa estranha. Mas o que o "homem bom" criado por Waldomiro Filho faz é ampliar a estranheza da inespecificidade da prosa do autor alemão, explorando-a a partir de um cenário familiar. Os horrores do Holocausto são os horrores da ditadura militar brasileira. A deambulação não tem como cenário as cidades europeias, mas a Camacã da infância do narrador, cidade do interior baiano, perdida "na desimportância onde antes era alguma coisa que cedeu lugar ao que não veio". Améry, Perec, Nabokov aparecem lado a lado de Frei Tito, Emiliano José e da própria avó do narrador, de sua família sem diários, daqueles que "não deixaram rastros". Esse deslocamento expande o "apavorante gabinete de raridades" criado pelo Mal, diante do qual a literatura não oferece salvação. Se o "homem bom" do título pode oferecer alguma resistência aos leitores mais céticos, o comentário do narrador sobre a foto de Lev Shevchenko, que registra em meio à guerra na Ucrânia uma barricada de livros protegendo uma janela, dissipa dúvidas: "Nem a barricada nem este texto alterarão o curso da desgraça".
Waldomiro Filho pensa o mal que assola o mundo em 'Um Homem Bom'
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.