Ela mora às margens do rio Mutuacá, na comunidade do Carvão, distrito de Mazagão (AP), município da região metropolitana de Macapá. Dalva Miranda da Silva, 67, no entanto, recusa-se a ser chamada de ribeirinha. "A expressão ribeirinho denota uma forma de inferiorizar. Prefiro cidadão das águas. O rio é onde o seu filho nasce e se banha. É a nossa casa, o nosso alimento, a nossa estrada", define a líder comunitária que chegou à região há 36 anos, ao se apaixonar pelo líder extrativista Joaquim Belo, 64. Levou os dois filhos do primeiro casamento, que se juntaram aos dois que o novo companheiro já tinha, em uma história de amor e ativismo. O casal se uniu também pela preservação da biodiversidade e do modo de vida dos povos tradicionais da Amazônia. Nascida em Macapá, filha de uma portuguesa que se casou com um militar, pioneiros na criação do antigo território federal, Dalva se casou aos 17 anos e foi morar em Maceió (AL). Ao se separar, abandonou o curso de psicologia e foi viver no meio da floresta, onde passou mais de um ano sem energia elétrica. Circulava em um Fusca, único carro da comunidade na época, e pilotava uma motocicleta. "Era um escândalo, mas me acolheram muito bem." Sofreu um grave acidente de moto há três décadas. "Naquela época, o que tinha para fazer era colocar gesso. Fiquei 60 dias com a perna engessada", relata. O tratamento possível deixou sequelas. "Hoje tenho lesão nos dois joelhos e problema na coluna. Passei anos apoiando meu corpo de um lado só para me livrar da dor após o acidente." Dalva diz que encontrou alívio mesmo em remédios caseiros. "Tenho qualidade de vida hoje graças a banhas, ervas e medicamentos feitos com osso de peixe e veneno de cobra. Quando vim morar na Foz do Amazonas, tomava remédio controlado para pressão. Hoje não tomo mais." Criada na religião católica, passou a cultuar a natureza. "Eu me relaciono com Deus sem atravessador, por meio da natureza. Quando plantei um ipê e vi as primeiras folhas e flores, agradeci a Deus." Enraizada na comunidade, ela atua há 29 anos como voluntária na Escola Agroextrativista do Carvão, onde os 187 alunos vindos de 153 comunidades do Amapá e do Pará passam 15 dias em regime de internato e 15 dias em casa. "Tudo é espaço de aprendizado", diz ela, defensora de um currículo que integre os saberes da floresta. Com a bagagem de quem já foi gestora educacional do município por 12 anos e secretária de Ação Social por outros oito —período em que conquistou o selo Unicef para Mazagão—, Dalva mantém seu alinhamento histórico com a esquerda. "Serviço social não é esmola, é direito." Ela aponta avanços conquistados graças a programas sociais de transferência de renda, como Bolsa Família e Bolsa Verde. "Defendo muito as políticas do governo Lula porque elas chegam na ponta. O Bolsa Família é vital menos pelo valor e mais pelas condicionalidades porque obriga a criança a estar na escola e com a vacinação em dia", afirma ela, que declara voto no petista mais uma vez em outubro. "Tem famílias aqui que recebem cinco políticas diretas do governo federal, e isso faz uma diferença enorme." Dalva diz que a definição do voto vai além da ideologia. "Voto em quem defende a democracia e a liberdade." Vota ainda de olho em melhoria para o Amapá e a região amazônica. "Temos abundância de água, mas a população não tem água tratada para beber." O "fator Amazônia", pondera, precisa ser discutido de verdade pelos políticos. "Um metro quadrado de obra aqui custa o dobro. Tudo é mais caro, a gasolina, a logística", exemplifica. "Ficamos reféns de uma política muito simplória enquanto faltam vacinas nos territórios para combater surtos de catapora." Ela não coloca Davi Alcolumbre (União Brasil), presidente do Senado, entre os políticos do estado dos quais se orgulha. "Nomino o João Capiberibe [ex-governador] e o Waldez Góes [ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional]. O resto parece que, quando chega em Brasília, entra numa caixinha e só fala da Amazônia de forma transversal." Eleições Hoje Receba no seu email destaques das campanhas, pesquisas e disputas nos estados Para a líder comunitária, a Amazônia desafia o mapa oficial. "A política pública é definida num mapa que coloca de um lado Amapá e do outro o Pará. Mas é uma fronteira líquida, onde água não separa, ela une", constata. "Se um paciente com malária do outro lado do rio vem fazer o tratamento aqui, é preciso burlar o sistema para atendê-lo." Conta ter reunido a comunidade para criar um programa de habilitação naval. "Temos mais de 20 alunos que vêm sozinhos navegando por esses rios de rabeta, sem qualquer sinalização, com balsas e navios gigantescos que fazem ondas e viram embarcações pequenas", relata. "Eles não são habilitados. Queria muito que os deputados da Amazônia começassem a discutir isso." Dalva questiona a lógica das estatísticas oficiais, que classificam o interior amapaense como miserável. "O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) diz que o meu município está abaixo da linha da pobreza porque mede se a pessoa tem geladeira e carro. Mas coloco a linha de pesca na frente de casa e tiro três quilos de peixe fresco para o almoço. Isso é qualidade de vida, mas não entra nas estatísticas." A educadora também quer que os impactos da crise climática sejam tratados como tal. Dalva se indigna quando ouve no telejornal que "a enchente matou", "a água destruiu", quando se anunciam as catástrofes "causadas pela irresponsabilidade humana". Dalva defende mudança de currículo nas universidades públicas. "Não quero que a jovem estude nutrição na capital e venha me ensinar a cozinhar brócolis. Ela tem que aprender a valorizar o que produzimos aqui. A educação precisa resgatar a autoestima de quem vive dentro da floresta." LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
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