Voc� est� realmente presente?

Voc� est� realmente presente?

Esta semana, assisti ao documentário brasileiro "Quanto Tempo o Tempo Tem", dirigido por Adriana Dutra e lançado em 2015, e saí com a impressão de que ele foi feito para os dias atuais. O filme nasceu de um desconforto da própria diretora, que vivia sem tempo para nada e tinha um ano, por contrato, para entregar uma obra sobre justamente isso. Quando os créditos subiram, pensei nas minhas filhas. Elas estão crescendo na velocidade da luz, e eu mal consegui acompanhar a passagem de uma fase para a outra. Acordar um dia e perceber que a criança de antes já não existe é uma experiência de quase todo pai e toda mãe, e raramente vem com aviso. Qualquer lugar público serve de retrato do uso do tempo. Na mesa de restaurante em que cada um olha para a própria tela, na fila em que ninguém troca uma palavra, no elevador em que o silêncio virou regra, a cena se repete. Estamos fisicamente juntos e, ao mesmo tempo, em outro lugar. O olhar que antes encontrava o do outro hoje encontra uma notificação, e a conversa que poderia nascer ali simplesmente não acontece. O filme descreve bem esse efeito. Com tanto conteúdo circulando, é como se nos multiplicássemos para estar em todo lugar ao mesmo tempo, na mensagem, na reunião, na rede, e o simples ato de contemplar acabou ficando para trás. Para quem empreende, essa pressão é ainda mais sutil. A presença é cobrada o dia inteiro, de clientes, de equipe, de seguidores, e a agenda lotada vira prova de importância. Só que ninguém sai de uma semana assim com a sensação de ter vivido o que realmente importava. Quem tem filhos sabe que a infância não espera a agenda desocupar. Ela acontece em pedaços de minutos, no caminho da escola, na hora de dormir, na pergunta feita sem aviso. Esses minutos não voltam, e nenhum resultado de trimestre os compensa.O problema, talvez, nem seja a falta de tempo, e sim a falta de atenção, porque as horas continuam sendo 24. O que mudou é que raramente estamos inteiros em uma delas. Almoçamos com o celular ao lado do prato, filmamos a apresentação da escola em vez de assisti-la, respondemos a uma mensagem de trabalho enquanto a criança conta o que aconteceu no dia, ansiamos por registrar a viagem para compartilhar nas redes sociais e ganhar likes, mas sem estar realmente vivenciando a experiência. O tempo de qualidade não é o que sobra do dia, é o que decidimos proteger dele. Pode ser meia hora sem tela com as filhas, um jantar sem interrupção, uma caminhada sem fone. O presente só existe porque passa, e se ele parasse, deixaria de ser tempo para virar eternidade. É justamente por ser finito que merece atenção inteira. Uma criança não vai lembrar de quantas mensagens os pais responderam em um ano, mas vai lembrar se eles estavam olhando para ela. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

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