Imagine que você tenha dez imóveis. Nove deles se valorizaram normalmente ao longo do último ano e apenas um perdeu valor. Você venderia todos os dez por causa do desempenho de apenas um? Provavelmente não. Antes de qualquer decisão, procuraria entender o que aconteceu com aquele imóvel específico. Curiosamente, muitos investidores fazem exatamente o contrário quando analisam a rentabilidade consolidada de suas carteiras de investimentos financeiros. Nos últimos anos, as plataformas de investimentos passaram a exibir, de forma cada vez mais clara, o retorno da carteira como um todo. É uma evolução bem-vinda. Afinal, o investidor passa a acompanhar o desempenho do patrimônio de forma simples e organizada. O problema não é esse número. O problema é imaginar que ele responde perguntas que, na verdade, não consegue responder. A primeira delas é talvez a mais comum: minhas escolhas foram boas ou ruins? Muitos investidores olham para a rentabilidade da carteira, a comparam com o CDI e chegam rapidamente a uma conclusão. Se a carteira superou o CDI, acreditam que todas as decisões foram acertadas. Se ficou abaixo, entendem que tudo está errado. A realidade costuma ser bem mais complexa. Imagine uma carteira composta por 90% em renda fixa e 10% em ações. Suponha que ela tenha rendido 120% do CDI. Isso significa que todas as escolhas foram boas? Não necessariamente. É perfeitamente possível que justamente a parcela em ações tenha apresentado desempenho inferior ao Ibovespa. Nesse caso, o resultado agregado foi positivo porque o mercado acionário subiu, mas a escolha das ações, ou do gestor responsável por elas, foi inferior ao índice de referência. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. O inverso também é verdadeiro. Imagine que essas ações tenham caído 10%, enquanto o Ibovespa recuou 15%. A carteira provavelmente ficou abaixo do CDI, mas isso não significa que as escolhas dentro da renda variável tenham sido ruins. Na verdade, elas superaram o próprio mercado. Perceba que estamos avaliando decisões diferentes. Uma delas é quanto investir em cada classe de ativos. Outra é quais ativos escolher dentro de cada classe. A rentabilidade consolidada consegue mostrar o resultado final da carteira, mas não consegue dizer, sozinha, qual dessas decisões foi acertada ou equivocada. Ela também não responde outra pergunta muito importante: devo mudar toda a minha carteira? Voltemos aos dez imóveis. Se apenas um perdeu valor, dificilmente você venderia todo o patrimônio imobiliário. Primeiro procuraria entender se o problema está naquele imóvel específico ou se houve alguma mudança que realmente justificasse uma decisão mais ampla. Com investimentos deveria acontecer exatamente a mesma coisa. Se apenas uma pequena parcela da carteira foi responsável pelo desempenho abaixo do esperado, é essa parcela que merece ser analisada. Mudar toda a estratégia por causa de um componente específico costuma ser tão irracional quanto vender todos os imóveis porque apenas um deles perdeu valor. Mas talvez a pergunta mais importante seja outra: o que devo fazer agora? É justamente nesse ponto que muitos investidores passam a olhar para o lugar errado. Em vez de analisar as perspectivas futuras daquele investimento, concentram-se exclusivamente no retorno passado. Se uma ação caiu 10%, a pergunta relevante não é quanto ela perdeu. É se, diante das perspectivas atuais, ela continua oferecendo uma boa relação entre risco e retorno. Aliás, vale inverter o raciocínio. Se essa mesma ação tivesse subido 10%, você a compraria mais apenas porque se valorizou? Provavelmente não. Então por que vendê-la apenas porque caiu? Em ambos os casos, a decisão deveria ser guiada pelas expectativas para o futuro, não pelo comportamento recente dos preços. A rentabilidade consolidada é uma excelente ferramenta para acompanhar a evolução do patrimônio. Mas ela responde apenas uma pergunta: quanto sua carteira rendeu de forma agregada. As perguntas mais importantes continuam sem resposta. Você escolheu bem os ativos? Assumiu o nível de risco adequado? Foi a alocação geral que não funcionou ou apenas uma parte da carteira? O cenário mudou ou apenas os preços oscilaram? Um único número resume o resultado de uma carteira. Entender as causas desse resultado, e decidir o que fazer a partir dele, continua sendo a parte mais importante de investir. Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Voc� est� interpretando corretamente a rentabilidade da sua carteira?
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