Imagine dois sócios administrando uma empresa. Um conhece o dinheiro que existe no caixa, mas desconhece parte das dívidas. O outro sabe quais são as obrigações, mas não conhece todos os ativos. Os dois podem ser excelentes administradores individualmente. Ainda assim, seria difícil tomar boas decisões conhecendo apenas metade do balanço. Curiosamente, muitos casais administram dessa forma o maior projeto financeiro das pró vidas. Um sabe quanto ganha, quanto possui e quanto deve. O outro também. Mas nenhum conhece completamente a situação financeira de quem está ao seu lado. Isso significa que seu marido ou sua esposa precisa saber exatamente quanto você tem? A resposta parece simples, por que não deveria? Ou melhor, no que ajuda não saber? Existe uma diferença importante entre privacidade e segredo financeiro. Ter uma conta individual, fazer investimentos próprios ou possuir uma parcela da renda que pode ser gasta sem precisar explicar cada compra é preservar autonomia. Esconder uma dívida, uma obrigação ou um patrimônio capaz de mudar os planos da família é outra coisa. Imagine um casal que acredita ter R$ 1 milhão acumulado e, a partir disso, conclui que precisará trabalhar por mais dez anos antes de se aposentar. Um dos dois, porém, possui outros R$ 2 milhões, destinados também à sua aposentadoria, que o outro desconhece. Ignorar esse patrimônio pode mudar completamente as decisões tomadas em conjunto. O problema pode ser ainda maior quando o que está escondido não é patrimônio, mas dívida. Alguém pode dizer que possui R$ 500 mil investidos e omitir que deve R$ 400 mil. Para o planejamento familiar, os R$ 500 mil isoladamente dizem muito pouco. Talvez seja até mais importante contar quanto você deve do que quanto você tem. Há, entretanto, razões compreensíveis para alguém não querer abrir completamente sua vida financeira. O patrimônio pode ter sido construído antes do casamento. Pode haver filhos de outro relacionamento. Um pode ser muito mais poupador que o outro. Ou simplesmente existir o desejo de preservar alguma independência. Imagine que alguém tenha acumulado R$ 1 milhão pensando na aposentadoria. Ao descobrir esse valor, o outro pode enxergá-lo como dinheiro disponível para trocar de carro, viajar ou elevar o padrão de vida. Os dois conhecem o mesmo número, mas atribuem funções completamente diferentes a ele. Por isso, tão importante quanto saber quanto existe é combinar para que aquele dinheiro existe. Esse é um paradoxo pouco percebido: duas pessoas podem ter excelentes planejamentos financeiros individuais e um péssimo planejamento financeiro familiar. Um pretende se aposentar aos 55 anos e o outro aos 70. Um quer comprar um imóvel e o outro prefere alugar. Um deseja deixar patrimônio para os filhos e o outro pretende consumir boa parte do que acumulou durante a vida. Nenhum deles precisa necessariamente estar errado. O problema é que estão planejando futuros diferentes enquanto constroem a mesma vida. Colunas Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha Existe ainda outra situação frequente. Em alguns casais, o patrimônio é conhecido, mas apenas uma pessoa sabe administrá-lo, ou pelo menos se propõe a administrá-lo. Ela conhece os investimentos, os seguros, as dívidas, os beneficiários e o planejamento para aposentadoria. A outra sabe apenas que "ele" ou "ela" cuida do dinheiro. Enquanto tudo funciona, isso pode parecer eficiente. O problema surge diante de morte, incapacidade, separação ou simplesmente quando uma decisão precisa ser tomada sem a presença de quem concentrava todas as informações. O patrimônio pode até pertencer aos dois, mas o conhecimento pertence a apenas um. Isso não significa transformar transparência em fiscalização. Saber a situação financeira da família é diferente de perguntar por que o outro gastou R$ 500 em uma roupa ou R$ 10.000 em um celular. Quando cada compra precisa ser justificada, planejamento começa a parecer auditoria. Transparência não exige compartilhar cada extrato. Exige compartilhar informação suficiente para que as decisões comuns sejam tomadas com números verdadeiros. Uma alternativa é definir aquilo que realmente precisa ser compartilhado. Renda, patrimônio, dívidas e compromissos capazes de afetar os planos da família precisam fazer parte da conversa. Depois de definidos o orçamento familiar, os objetivos comuns e quanto precisa ser poupado, cada um pode manter uma parcela sob sua própria decisão. E talvez essa conversa devesse acontecer antes do que imaginamos. Antes de juntar patrimônio, comprar um imóvel ou assumir compromissos de décadas, faz sentido conhecer o balanço de quem vai construí-los com você. Antes de casar, talvez seja tão importante conhecer as dívidas de alguém quanto saber quanto essa pessoa ganha. Esconder informações relevantes tem uma consequência que vai além da confiança. Se existe uma dívida desconhecida, o patrimônio líquido usado no planejamento está errado. Se existem gastos recorrentes escondidos, o orçamento está errado. Se há patrimônio desconhecido, as metas e decisões também podem estar erradas. Voltando aos dois sócios, nenhum deles precisa acompanhar cada pequena despesa feita pelo outro. Mas ambos precisam conhecer o balanço da empresa para decidir seu futuro. Seu marido ou sua esposa não precisa saber onde você gastou cada real. Mas precisa conhecer aquilo que pode mudar o futuro financeiro dos dois. Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Voc� deveria contar para seu marido ou sua esposa quanto dinheiro tem?
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