Você confiaria mais em um médico especialista ou em alguém que aprendeu medicina pela internet? Provavelmente, no especialista. Entretanto, quando o assunto é investir em ações, muitas pessoas acreditam que conseguem tomar decisões melhores do que equipes de profissionais que dedicam o dia inteiro a analisar empresas e dispõem de mais recursos para isso. E algumas chegam a essa conclusão simplesmente porque ganharam mais dinheiro em determinado período. Mas ganhar mais em um curto período não significa, necessariamente, investir melhor no longo prazo. Imagine um investidor que concentrou toda a sua carteira em uma única empresa, cujas ações valorizaram 80% em um ano, enquanto um fundo diversificado rendeu apenas 20%. O retorno superior pode não ter sido resultado de maior habilidade, mas de um risco muito maior e de sorte. É comum atribuirmos nossas decisões bem-sucedidas à própria competência, enquanto responsabilizamos o azar ou fatores externos pelos fracassos. Esse fenômeno, conhecido como viés de autoatribuição, pode nos levar a confundir sorte com habilidade e assumir riscos cada vez maiores. Se aquela empresa tivesse perdido metade de seu valor, o investidor também teria perdido 50% de sua carteira. O gestor, ao diversificar, reduziu a exposição ao risco específico daquela empresa, embora continuasse sujeito às oscilações do mercado. Mesmo uma carteira com seis empresas pode apresentar riscos elevados: seja porque metade dos recursos está concentrada em uma única ação, seja porque todas pertencem ao mesmo setor. Rentabilidades não podem ser comparadas sem considerar os riscos assumidos. Relatórios SPIVA, da S&P Dow Jones Indices, mostram que, em diversos mercados e horizontes de avaliação, a maioria dos fundos de ações de gestão ativa não consegue superar seus índices de referência. É provável que os resultados dos investidores individuais sejam ainda piores, mas faltam dados abrangentes para comprovar essa hipótese. Há, porém, uma dificuldade adicional: enquanto os fundos divulgam regularmente a rentabilidade de suas cotas, muitos investidores sequer sabem quanto suas próprias carteiras realmente renderam. Lembram-se da ação que dobrou de valor, mas esquecem os prejuízos realizados em empresas que já venderam ou ignoram perdas de posições que ainda mantêm. Imagine uma carteira inicialmente dividida igualmente entre dez ações, sem movimentações durante o ano. Uma delas dobrou de valor, mas as outras nove perderam 20%. Apesar do grande acerto, a carteira teria perdido 8%, antes de custos e impostos. O resultado relevante é o desempenho do patrimônio como um todo, incluindo operações encerradas, dividendos e movimentações financeiras. Folha Mercado Receba no seu email o que de mais importante acontece na economia; aberta para não assinantes. O excesso de confiança não afeta apenas a percepção dos resultados. Ele também pode prejudicar a rentabilidade. Em estudo publicado em 2000, Brad Barber e Terrance Odean analisaram mais de 66 mil contas de investidores americanos. Os que mais negociavam obtiveram retorno anual de 11,4%, após os custos de negociação, enquanto o mercado valorizou 17,9% no mesmo período. Os pesquisadores apontaram o excesso de confiança como uma das explicações para a negociação excessiva. Isso significa que investir por meio de fundos é sempre melhor? Não. Gestores profissionais também erram. Por outro lado, uma boa gestora pode oferecer mais do que a seleção de ações: equipes especializadas, acompanhamento permanente das empresas e processos estruturados de controle de riscos. Ao investir em um fundo, você não compra a promessa de ganhar mais, mas contrata um processo profissional de decisões que precisa justificar seus custos.Há ainda uma vantagem frequentemente ignorada: o tempo poupado. Para um empresário, médico ou advogado, talvez as horas dedicadas a acompanhar empresas produzissem resultados melhores em sua própria profissão. A escolha também não precisa ser excludente. É possível delegar parte dos investimentos a gestores e manter outra parcela em ações selecionadas diretamente, considerando os riscos do patrimônio como um todo. Comprar ações diretamente faz sentido para quem dispõe de conhecimento, tempo e disciplina para analisar empresas, medir resultados e administrar riscos. Para os demais, delegar a gestão pode ser mais eficiente, desde que o gestor entregue resultado com risco controlado. Mas há uma última contradição: se você não acredita que gestores profissionais conseguem superar consistentemente os índices de mercado, por que acredita que conseguirá fazendo suas próprias escolhas? Nesse caso, talvez a alternativa mais coerente seja investir por meio de ETFs que acompanham índices, tema que discutiremos no próximo artigo. Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Voc� consegue investir em a��es melhor do que um gestor profissional?
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