Vit�rias na Am�rica Latina estimularam governo Trump a antagonizar Brasil, avaliam especialistas

Vit�rias na Am�rica Latina estimularam governo Trump a antagonizar Brasil, avaliam especialistas

Se no início do ano as desavenças entre o governo Donald Trump e o Brasil pareciam superadas, culminando em uma visita do presidente Lula (PT) a Washington, desde então a relação bilateral está em queda livre. Em uma tentativa de fortalecer a candidatura de Flávio Bolsonaro, Trump recebeu o senador do PL no Salão Oval um dia antes de designar facções brasileiras como terroristas, manteve um canal aberto com Eduardo Bolsonaro, que recebeu um green card do governo, e impôs novo tarifaço sobre o país —com o secretário de Estado, Marco Rubio, dizendo explicitamente que as negociações falharam por causa de Lula. Nas redes sociais, o chefe da diplomacia americana escreveu que "o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa-fé", e que o petista "colocou seu próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço por isso". Em resposta o Itamaraty chamou a fala de "ataque grosseiro e arrogante". Analisando essa cronologia, o professor Felipe Loureiro, do Instituto de Relações Internacionais da USP (Universidade de São Paulo), avalia que a sequência de vitórias de aliados de direita de Washington na América Latina pode ter incentivado Trump a pressionar mais o governo brasileiro a fim de prejudicar o petista nas eleições. "Essa mudança coincide com um fortalecimento da extrema direita na região", diz Loureiro. "A vitória de [José Antonio] Kast no Chile, de [Javier] Milei nas eleições legislativas na Argentina, de Keiko [Fujimori] no Peru e de [Abelardo de] la Espriella na Colômbia, talvez o caso mais emblemático dessa guinada, mostram ao governo norte-americano que a oportunidade não pode ser perdida. Tudo que puder ser feito para dificultar a vida do governo Lula será feito", afirma. A impressão é compartilhada pelo diplomata Rubens Ricupero. "Embora Trump tenha tomado medidas como essa [o tarifaço] contra outros países, como o Canadá, no caso do Brasil, ele deixou claro que a motivação é política", diz o ex-ministro da Fazenda e presidente emérito do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais), lembrando a fala de Rubio. "É uma afirmação que não corresponde à realidade. A aplicação das tarifas não ocorre por causa do ego do Lula, mas porque o governo Trump não tolera um governo de orientação diferente na América Latina —isso é visto como um desafio em uma região na qual [Washington] se acostumou com alinhamento", afirma Ricupero. Para Amâncio Jorge de Oliveira, professor titular de Relações Internacionais da USP, o desejo do governo Trump de formar uma "aliança conservadora" nas Américas aumenta de partida o distanciamento entre os países. Oliveira também especula que Trump possa ter recorrido ao tarifaço após não ter recebido concessões que esperava quando suspendeu as sanções contra o STF (Supremo Tribunal Federal) —como acesso ao mercado de terras raras no Brasil, entre outras. "Pensando no estilo de Trump, a lei Magnitsky [aplicada contra o ministro Alexandre de Moraes] não seria retirada sem uma contrapartida", afirma. "A diplomacia com base em posturas unilaterais é o método do governo americano hoje. Há, entretanto, uma desconexão entre o efeito político desejado e a medida utilizada." Para Oliveira, "apelar para a soberania, se enrolar na bandeira e defender interesses nacionais são ativos políticos que o presidente Lula mobiliza para ganhar mais apoio". "Tanto é assim que o campo bolsonarista comemorou as primeiras tarifas impostas [em julho de 2025], mas agora muda de tom, porque sabem que isso custa voto. Ou seja, é possível que o governo Trump faça o cálculo de que o momento é propício para interferência, mas o instrumento utilizado só faz piorar a situação de Flávio", diz. Os especialistas ouvidos pela Folha concordam que, se este não é o ponto mais baixo da relação entre os dois países desde o golpe de 1964 que inaugurou a ditadura militar, certamente é um dos piores. "A diferença é que agora a interferência é explícita", diz Ricupero. "Se na época a participação americana no golpe, com movimentação de esquadra naval e financiamento, foi ocultada, hoje Trump apoia abertamente candidatos contrários a Lula", afirma o diplomata. Loureiro lembra que as relações entre os dois países também ficaram estremecidas quando o governo Jimmy Carter pressionou a ditadura no tema dos direitos humanos. Na ocasião, o general Ernesto Geisel chegou a romper um acordo militar com os EUA em retaliação. Loureiro diz, entretanto, que o governo americano "agia com mais cautela e responsabilidade institucional" na época. "Hoje o governo brasileiro tem muita dificuldade de fazer valer posições técnicas que mostram conclusões completamente diferentes daquelas que [Washington] vem apresentando com relação ao comércio bilateral." Lá Fora Receba no seu email uma seleção semanal com o que de mais importante aconteceu no mundo Ricupero avalia que a chance de nova negociação com os EUA para reverter o tarifaço é baixa enquanto Trump estiver no poder. "Por sorte, ele não pode ser candidato mais uma vez. Vamos ter que esperar um ano e meio. Por isso, de certa forma, Trump é para o Brasil um veneno com data de validade marcada", diz. Ademais, o diplomata acredita que a tensão atual não deve deixar sequelas graves porque Trump "não tem quem o suceda" e não vai deixar herança política. "Seu movimento termina com ele, porque é um movimento personalista. Além disso, Trump não é representativo dos EUA. Hoje tem um índice de popularidade baixíssimo, é repudiado mesmo lá. Quando terminar o mandato, vamos partir para uma normalização, e ele vai figurar apenas como má lembrança." Já Oliveira avalia que, mesmo assim, o saldo para o Brasil é essencialmente negativo. "Na possibilidade de vitória do governo Lula, teremos anos difíceis pela frente. Cai a eterna percepção de que o presidente consegue obter avanços somente com seu poder de persuasão, com a 'química'. Nesse caso, a química não está funcionando." Como consequência, a influência do Brasil na região diminui. "Perdeu-se a expressão de uma liderança regional, que era muito grande. Aquela antiga expressão, 'para onde vai o Brasil, vai a América do Sul', já não tem mais nenhum sentido. O continente virou à direita."

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