O debate a que assistimos no domingo foi deprimente, mas não surpreendente. É o resultado esperado do clima de constante alarmismo e polarização afetiva que domina a política nacional. Flávio puxou a disputa para a lama das acusações mútuas; Lula caiu e não saíram mais dali. Há controvérsias sobre quem "venceu". Mais do que favorecer um ou outro, aquele espetáculo deprimente deve ter, isso, sim, fortalecido em muitos a convicção de que nossa política está perdida e de que nunca descemos tão baixo. Esse sentimento desmobiliza a participação política, tende à abstenção e, portanto, prejudica a estratégia de Lula de levar mais gente às urnas. Mas imagino que também fortaleça o desejo de que, algum dia, de algum jeito, o cenário político mude. Estamos na reta final, a decisão popular será tomada em seis dias. Mais uma vez, entre petismo e bolsonarismo. Falhamos em superar a polarização. Nossas grandes lideranças envelhecem e seguimos, voluntariamente, presos a elas, e a qualidade de nossa política paga o preço dessa impotência coletiva. Em 2026 não superamos a dicotomia que tão mal nos faz, mas, a depender da escolha feita agora, podemos aumentar ou reduzir as chances de superá-la em 2030. Ganhando ou perdendo, Lula vive hoje sua última eleição. Ao longo de sua carreira, dominou a esquerda e impediu que qualquer nova liderança surgisse para sucedê-lo. O campo que se abre com sua aposentadoria tem diversos possíveis candidatos, além de novos nomes que terão espaço para crescer até lá. Mesmo o futuro do PT como o grande partido da esquerda nacional não está assegurado. A esquerda tem encontro marcado com a renovação, adiada até hoje porque Lula, maior que a própria esquerda, era o único nome capaz de fazer frente ao bolsonarismo. Depois dele, o próximo líder da esquerda será, ao menos inicialmente, bem menor que Lula. Pode ser moderado ou radical. Eleições Hoje Receba no seu email destaques das campanhas, pesquisas e disputas nos estados Já na direita, a renovação depende da derrota de Flávio. Se Flávio perder, duas derrotas presidenciais em sequência obrigarão a uma profunda reflexão, com a possibilidade —não a certeza— de que alternativas ao bolsonarismo tomem a dianteira. Se Flávio vencer, o domínio bolsonarista está garantido. Se até o menos expressivo dos Bolsonaros, com a bênção do pai, leva a maioria dos eleitores do país, ninguém estará em condições de lhe disputar a coroa. O governo Flávio é uma incógnita. Pode ser o pragmático que une políticos tradicionais com uma agenda reformista de mercado. Ou pode ser o mix de extremismos ideológicos, discurso de coach, nepotismo e o que há de mais sombrio na política fluminense. Sou capaz de apostar que os parentes, com ou sem cargo, terão influência; e que, passo a passo, essa influência se imporá sobre qualquer outro grupo que não se curve a ela. Seja como for, ao fim de um governo Flávio, o candidato será bolsonarista. Pode ser o próprio Flávio; pode ser seu pai; pode ser algum parente. O que é impossível é que seja alguém da direita não bolsonarista. E, contra ele, teremos alguém da ala mais radical do petismo, que cresce na oposição ao bolsonarismo. Nada muda. A renovação política não é o único critério do voto. Mas, para quem a deseja, os dois cenários acima não levam ao mesmo 2030. LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Vit�ria de Lula ou de Fl�vio n�o leva ao mesmo 2030
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