Esta eleição foi movida pelo tipo de conflito definido pela bibliografia como "guerra cultural". Disputas estruturadas em torno de valores morais e identidades nichadas, nas quais a luta política é deslocada da esfera econômica para a esfera cultural e normativa. Assim, temas como segurança pública, economia e relações internacionais perderam espaço para a identidade de gênero, as relações étnico-raciais, a religiosidade e a jornada moral pelo saneamento do sistema político. É essa força que explica o retumbante sucesso de boa parte dos campeões de votos nas eleições legislativas, à direita e à esquerda. De Lucas Pavanato e Índia Armelau a Renata Souza e Dani Balbi, de Julia Zanatta e Pastor Sargento Isidório a Sâmia Bomfim, até os estelares Nikolas Ferreira e Erika Hilton: entre os mais votados nas assembleias e na Câmara, destacam-se os que mobilizam afetos identitários e prometem representação baseada no compartilhamento da mesma condição de existência. A política institucional vira um jogo de espelhos, no qual iguais votam em iguais e a alteridade é negada. Nada melhor para um identitário de direita do que um identitário de esquerda, e vice-versa. A dança é coreografada, na eleição e no mandato, como mostram Nikolas e Erika. Adversários complementares, feitos um para o outro. A mesma dinâmica ajuda a entender a acachapante vitória do PL na disputa pelo Senado. O ex-presidente Jair Bolsonaro foi capaz de criar um movimento cujos adeptos não são movidos pela lógica do interesse —ou seja, não esperam ser compensados por serviços de bem-estar. A adesão é ideológica, e não pragmática. Estão convencidos de que fazem parte de uma jornada redentora contra a República de 1988, a qual entendem como um sistema político estruturalmente corrompido e corruptor. Nessa jornada, o principal antagonista não é o PT, mas sim o STF (Supremo Tribunal Federal), justamente quem frustrou a revolução bolsonarista entre 2019 e 2022. Nesse sentido, as denúncias envolvendo Alexandre de Moraes serviram como evidência empírica da superioridade moral desse projeto de ruptura. Essa arquitetura ideológica é suficiente para manter a lealdade de pelo menos 35% do eleitorado, a despeito de qualquer coisa. Flávio Bolsonaro pode trocar áudios carinhosos com Daniel Vorcaro; poderia até mesmo matar alguém com as próprias mãos na avenida Paulista, diante das câmeras. Não perderia sequer um voto. Lula não conseguiu se descolar do STF, o que era, de fato, algo muito difícil de ser feito. Diante do desmonte da Presidência da República durante os últimos anos, restou ao governo a coalizão com o próprio STF, na tentativa de equilibrar a correlação de forças com um Congresso Nacional superempoderado. Na imaginação política bolsonarista, portanto, o PT e o STF são cúmplices na manutenção do sistema que precisa ser derrubado. A insatisfação com a segurança pública, com o endividamento das famílias e a percepção da economia trouxeram o restante dos votos que quase decretaram a vitória de Flávio ainda no primeiro turno. Cabe agora a Lula deslocar o eixo da disputa, da guerra cultural para o plano dos interesses práticos, onde o bolsonarismo tem pouco a dizer. Se há alguma chance de virada, está nesse movimento. Seria um milagre. Haja padroeira para abençoar. Aliás, Nossa Senhora Aparecida não ajudou no primeiro turno, exatamente porque a guerra cultural é território bolsonarista.
Vit�ria de Lula est� condicionada a tirar luta pol�tica da guerra cultural
Full Article
Original Source
Read the full article at Www1 →KhanList aggregates and links to publicly available news content. We do not host full articles from third-party sources. Always verify important information with original sources.