Tudo começou com uma cuba de vinho. Uma das substâncias geradas na produção da bebida intrigou o cientista francês Louis Pasteur e acabou levando, mais de 170 anos depois, ao Nobel de Química de 2026. Uma das substâncias que se deposita nos tonéis de fermentação de uva, para produção de vinho, é o ácido tartárico. Essa mesma substância pode ser encontrada em forma de cristais em rolhas de bons vinhos ou no fundo de garrafas. Por volta de 1820, conseguiu-se isolar também outro elemento, bastante similar ao ácido mencionado, mas não idêntico. Pasteur havia ouvido de colegas que o ácido tartárico, em algumas ocasiões, polarizava a luz para a direita e, em outras, não tinha qualquer efeito sobre ela. Então, ele mesmo fez alguns cristais de ácido tartárico e os examinou com um microscópio. A partir das observações, Pasteur conseguiu identificar duas variações de cristais diferentes entre si, mas uma espelhada em relação à outra —tal qual ocorre com as nossas mãos. Com uma pinça, o cientista separou os diferentes tipos e os dissolveu. Ao jogar luz polarizada sobre um dos líquidos, viu o desvio dela para a direita; no outro, a luz foi desviada para a esquerda. Combinando-os, porém, a luz não sofria desvios. Assim, aos 25 anos, Pasteur descobriu a quiralidade, ou, em termos mais simples, substâncias que ocorrem em duas variações, uma sendo o espelho da outra. E foi exatamente a temática premiada no Nobel de Química deste ano. O prêmio foi dividido entre Henri Kagan, 95, da Universidade Paris-Sud, da França, e Kenso Soai, 76, da Universidade de Ciência de Tokyo, no Japão. O diferencial do trabalho de Kagan e de Soai foi ter alcançado métodos de controle sobre a homoquiralidade. Especialmente pensando em fármacos, não ter controle sobre o produto feito pode trazer sérios problemas. "No nosso corpo, nos organismos vivos, os aminoácidos que são sempre de uma quiralidade específica, são sempre L, sempre à esquerda", diz Felippe Colombari, pesquisador da Ilum Escola de Ciência, do CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais). Dessa forma, nosso corpo vai interagir de formas distintas com moléculas que sejam à esquerda ou à direita. "Se a gente pensa num fármaco, muitos deles são quirais, e se a gente não tiver a orientação correta, podemos ter, em vez de um medicamento, um veneno." Foi exatamente isso que aconteceu no famoso caso da talidomida, nos anos 1960. Esse medicamento era indicado para enjoos, entre outros sintomas, e muitas mulheres grávidas começaram a usá-lo. A situação levou a milhares de bebês com más-formações congênitas. Mais tarde, descobriu-se que uma das imagens espelhadas —os chamados enantiomêros— da substância ativa da droga era o que causava os danos nos fetos. Kagan conseguiu refinar o processo —ao modificar as concentrações iniciais de imagens espelhadas usadas como catalisadoras da reação— de obtenção de enantiômeros desejados e favorecer a obtenção de um deles como produto. Daí surgiu a ideia de reações assimétricas com efeitos não lineares —a justificativa do Nobel para a premiação de química deste ano foi a descoberta de efeitos não lineares e da autocatálise na síntese orgânica assimétrica. Soai, o outro ganhador do Nobel de 2026, estudando uma reação assimétrica citada acima observou semelhanças entre o catalisador usado e o produto final. Daí veio a ideia de buscar uma reação na qual o próprio catalisador se formasse durante a reação. Essa é a explicação para a segunda parte da justificativa do Nobel de Química deste ano. Após experimentos, em meados da década de 1990, Soai achou a substância quiral 5-pirimidil alcanol, que era capaz de produzir a si mesma. Na pesquisa, o cientista saiu de um excesso de 2% dessa substância e chegou a um valor de 87% dela. Foi um experimento revolucionário, segundo o comitê do Nobel. A evolução final ocorreu em 2003, quando o mesmo Soei conseguiu desenvolver uma reação química que primeiro criou excesso de um enantiômero —lembrando, uma imagem espelhada de um composto—, que, por sua vez, levou a cópias de si mesmo até chegar a compor quase 100% do produto final. Há, ainda um quê de acaso no início da reação, já que um dos enantiômeros se formava em maior quantidade e, a partir daí, dominava o resto da reação. O comitê do Nobel afirma que essa foi a primeira vez, desde o surgimento da vida na Terra, que uma pessoa conseguiu criar quiralidade a partir da combinação de moléculas não quirais. Os responsáveis pelo prêmio também classificam a reação de Soai como um dos experimentos químicos mais elegantes já realizados. "A vida surgiu com essa quiralidade específica das moléculas biológicas. Pode ser que lá atrás, há bilhões de anos, você tinha moléculas sendo catalisadas em uma poça d'água qualquer, com radiação e coisas assim. Pode ser que havia ali um cristal ou qualquer outra coisa que tenha se arranjado de uma maneira quiral. E isso começou a favorecer a produção de moléculas numa orientação específica", diz Colombari, que trabalha com moléculas quirais. Qual a importância para o futuro A relevância da área para novos medicamentos já se mostra clara no exemplo da talidomida. Mas a quiralidade também se mostra importante para a área de nanomateriais, segundo Colombari. "A gente precisa ter o ajuste fino de como produzimos essas moléculas, pensando que elas vão interagir com as nossas macromoléculas, que são quirais", diz o pesquisador do CNPEM. A quiralidade quase onipresente na natureza abre portas de aplicação dessa propriedade, diz Colombari. O pesquisador do CNPEM diz trabalhar, há alguns anos, com cientistas da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos) e da Universidade de Michigan (Estados Unidos) na sintetização de nanomateriais a partir de aminoácidos quirais, o que faz com que o próprio nanomaterial também se torne quiral. "Ele se torna um nanomaterial com orientação também à esquerda e à direita", diz Colombari. Uma das consequências disso é que, além do material se tornar biocompatível com biomoléculas devido à presença dos aminoácidos na sua superfície, esse nanomaterial também pode apresentar propriedades eletrônicas, que podem ser amplificadas com a presença de luz. "Se a gente joga a luz em um nanomaterial, podemos excitar os elétrons, gerar espécies que são reativas e capazes de oxidar, clivar [cortar] DNA, clivar material genético de bactérias, vírus, microrganismos", afirma Colombari. "Então, isso pode ajudar, por exemplo, a inativar patógenos." O pesquisador brasileiro também cita um possível uso desses nanomateriais em vacinas. Ele e outros cientistas usaram um nanomaterial quiral de ouro que, na interação com luz, atuava como adjuvante de vacinas, podendo aumentar a eficiência delas.
Vinho em cuba, talidomida e nanomateriais mostram import�ncia do Nobel de Qu�mica de 2026
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