Casas sobre palafitas em vilarejos ao norte de Bancoc já não são altas o bastante para permanecer secas. Isso porque o governo tailandês inunda deliberadamente comunidades ribeirinhas para poupar a capital. Dentro da casa de Kamonchanok Sathaphonamonwut, 34, erguida a mais de três metros do chão na província de Ayutthaya, sua família dorme em plataformas improvisadas e não pode usar o banheiro, que está alagado. Seu vilarejo foi inundado por seis anos consecutivos. Algumas pessoas se mudaram, outras elevaram ainda mais suas casas. "Nossa região simplesmente não consegue mais suportar tanta água", afirma. Ela afirma que as autoridades priorizam a proteção de Bancoc e de outros centros empresariais contra enchentes, negligenciando as comunidades. A Tailândia enfrenta enchentes todos os anos durante a temporada de monções, e cientistas afirmam que a mudança climática provocada pela ação humana tornou as chuvas fortes e as inundações mais frequentes e severas. Após as enchentes devastadoras de 2011, o governo ampliou diques, comportas e outras estruturas para desviar a água de Bancoc, da cidade histórica de Ayutthaya e das zonas industriais ao longo do rio Chao Phraya, que atravessa a capital. A estratégia tem mantido os centros comerciais seguros, mas outras áreas foram deixadas à própria sorte. A cerca de 20 quilômetros das ruínas de templos centenários de Ayutthaya, local reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco, moradores dizem que as enchentes, que antes chegavam aos joelhos, agora ultrapassam a altura da cabeça. Além disso, a água pode levar vários meses para baixar. Kamonchanok diz que, por isso, já foi obrigada a se deslocar de barco e a suspender eletrodomésticos e outros pertences acima do nível da água. "Tudo o que podemos fazer é lidar com as consequências. Há um limite para o quanto conseguimos nos adaptar." O porta-voz do Departamento de Irrigação da Tailândia, Thanet Somboon, afirma que as mudanças climáticas, a geografia de baixa altitude e os diques construídos recentemente, que alteraram o fluxo natural do Chao Phraya, contribuíram para enchentes mais severas nas comunidades rio abaixo. "Mesmo quando a água é liberada da barragem de Chao Phraya no mesmo ritmo de antes, o impacto é maior do que costumava ser", diz Thanet. Ainda segundo ela, depois que os canais de irrigação ficaram completamente cheios com a água desviada, as autoridades "não tiveram escolha a não ser liberar a água restante rio abaixo". Thanet reconhece, porém, que a infraestrutura talvez precise ser revisada para que as águas das enchentes sejam "mantidas dentro dos limites previstos". O ambientalista Sasin Chalermlarp afirma que o governo tem feito "um excelente trabalho" na gestão das enchentes nas planícies centrais. Mas pondera que essas medidas são cruéis para aqueles obrigados a lidar com as inundações. Em distritos ribeirinhos de baixa altitude que funcionam como áreas de retenção de cheias, longos trechos de vilarejos ficaram debaixo d’água no último mês, com algumas casas abandonadas e outras submersas até o telhado. Sasin afirmou que a água das enchentes, que antes se espalhava por grande parte de Ayutthaya, agora está concentrada em apenas 5% a 10% da província. Custos crescentes À medida que as enchentes nos distritos mais atingidos se tornam mais severas, moradores precisam gastar dinheiro para elevar ainda mais suas casas sobre palafitas. A família de Kamonchanok aumentou a altura da casa duas vezes na década de 1990, na segunda delas em 1,5 metro. Mesmo assim, a enchente alcançou a área habitável da casa em 2011 e voltou a atingi-la nos últimos seis anos. Elevar uma casa pode custar entre 100 mil e 1 milhão de bahts (R$ 15 mil a R$ 150 mil), dependendo do tamanho e da altura, segundo os moradores. Algumas famílias precisaram recorrer à obra duas vezes em apenas alguns anos, esgotando suas economias e recorrendo a empréstimos para sobreviver. Planeta em Transe Uma newsletter com o que você precisa saber sobre mudanças climáticas Sasin, que vive em uma área protegida de Ayutthaya, propõe um "imposto contra enchentes" para aqueles que se beneficiam das obras. Os recursos arrecadados seriam direcionados para as famílias afetadas pelas inundações, para ajudá-las a elevar suas casas e reparar os danos. Thanet, do Departamento de Irrigação, afirma que a ideia merecia um estudo mais aprofundado. "[É preciso determinar] como apoiar as pessoas que sacrificam suas terras para acomodar as águas das enchentes." A principal solução do governo é um canal de desvio de cheias de R$ 3,9 bilhões, projetado para transportar por segundo 1.200 metros cúbicos de água —cerca de metade do volume de uma piscina olímpica. O canal deve contornar o ponto onde o rio Chao Phraya se estreita ao atravessar Ayutthaya. A conclusão está prevista para 2030. Até lá, Kamonchanok diz que sua comunidade nem sequer exige o fim das inundações deliberadas. A demanda da vila é que seja imposto um limite para o nível máximo da água e apoio financeiro para aqueles cujas casas ficam abaixo da linha de inundação. "Tudo o que pedimos é poder viver com conforto em nossas próprias casas", afirma. "Por que não podem nos dar isso?"
Vilarejos tailandeses s�o inundados para proteger a capital de enchentes
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