Vidas jovens em risco no ambiente online

Vidas jovens em risco no ambiente online

A morte trágica de uma menina de 13 anos em Naviraí (MS), que no final de julho cometeu suicídio durante transmissão de vídeo numa plataforma digital, chamou a atenção para um problema de saúde pública observado em diversos países: o aumento, na última década, de casos de depressão, ansiedade, automutilação e suicídio entre os estratos mais jovens. No Brasil, segundo o boletim epidemiológico mais recente do Ministério da Saúde que apresenta uma série histórica sobre o tema, de 2016 a 2021, a taxa de suicídios no estrato entre 10 e 14 anos cresceu 45% e, entre 15 e 19 anos, 49% —taxas bem maiores do que a da população total (17,8%). Pesquisas internacionais ainda não permitem estabelecer uma relação causal geral entre o uso de redes sociais e a deterioração da saúde mental de crianças e adolescentes, mas as novas tecnologias de comunicação podem agravar riscos em grupos vulneráveis e expandir a violência presencial para o ambiente online. O Núcleo de Observação e Análise Digital da Polícia Civil de São Paulo produziu um levantamento sobre esse recorte específico. Comparando boletins de ocorrência do primeiro semestre de 2025 com os do mesmo período de 2026, o número de casos de tentativa de suicídio e de suicídio aumentou 38%, de 97 para 134. O de mortes subiu de 33 para 50, o que representa alta de 51%, e o de tentativas passou de 64 para 84, uma elevação de 31%. As causas vão muito além do uso excessivo de redes sociais. Há aliciamento, chantagem, cyberbullying e incentivo ao suicídio em chats e comunidades privadas. Jovens vulneráveis são estimulados à autolesão como prova de pertencimento ou lealdade —nos casos de indução investigados, várias vítimas já apresentavam automutilação anterior. O ECA Digital, em vigor desde março, determina prevenção e mitigação de riscos, experiências adequadas à idade, supervisão parental e configurações destinadas a evitar uso compulsivo. Inteligência investigativa para detectar grupos criminosos também é fundamental. Ademais, são necessárias ações preventivas. Nas escolas, expansão da educação midiática, para que os jovens aprendam a perceber riscos e a procurar ajuda, e de programas que promovam competências socioemocionais. No SUS, o foco não pode ser só no tratamento de crises já instaladas, mas no desenvolvimento de protocolos de identificação de sinais de alerta na atenção básica. A saúde mental dos mais jovens exige abordagem interdisciplinar contínua e integrada. editoriais@grupofolha.com.br

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