Uma combinação de fenômenos meteorológicos potencializada pelo El Niño deu origem aos eventos climáticos extremos que atingiram o Sul e o Sudeste nesta semana. Foi uma soma de fatores, segundo especialistas: a atuação de uma frente fria, áreas de baixa pressão, um corredor de umidade e um forte contraste de temperatura provocaram chuva extrema no Rio Grande do Sul e vendavais que deixaram mortos em São Paulo e no Rio de Janeiro. O El Niño entrou em atuação neste ano, mas meteorologistas ouvidos pela Folha afirmam que atribuir os temporais exclusivamente a ele seria uma simplificação. O aquecimento das águas do Pacífico ajuda a criar um ambiente mais quente e úmido, aumentando a energia disponível na atmosfera e favorecendo a ocorrência de eventos extremos, mas a intensidade de cada episódio depende da atuação simultânea de diferentes sistemas meteorológicos. "É muito errado usar o El Niño para explicar um evento isolado. Ele cria um cenário mais favorável, mas uma chuva extrema ou um vendaval dependem da combinação de vários fatores atmosféricos", afirma o meteorologista e consultor climático Francisco de Assis. Guilherme Borges, meteorologista da startup de monitoramento climático FieldPro, concorda com essa tese, mas afirma que os efeitos do El Niño já estão atuando no país e que ele teve, sim, um papel na intensificação dos ventos de quarta-feira. "O El Niño tem sim um par de culpa na ocorrência desses ventos. A gente já viu em anos anteriores a amplificação de rajadas de vento aqui na região Sudeste associadas a deslocamento de frentes frias para cá. De 2023 para 2024 aconteceu inúmeras vezes isso. Então, tem uma carinha dele para aumentar essa frequência de ventos mais significativos por aqui", diz Borges. Assis ainda explica que, no episódio desta semana, a frente fria avançou sobre uma atmosfera abastecida por um intenso transporte de umidade vindo da Amazônia. Ao mesmo tempo, um cavado —área alongada de baixa pressão— reforçou a instabilidade, enquanto o encontro entre massas de ar quente e frio criou um contraste de temperatura suficiente para intensificar tempestades. A frente praticamente estacionou sobre parte do Rio Grande do Sul. Alimentadas continuamente pelo corredor de umidade, as tempestades se formaram sucessivamente sobre as mesmas regiões durante vários dias, concentrando em poucas horas volumes de chuva equivalentes a um mês inteiro. Quando o sistema avançou para o Sudeste, os efeitos mudaram. Em vez dos maiores acumulados de chuva, predominaram ventos extremamente fortes. Em São Paulo, rajadas chegaram a 125 km/h, derrubando árvores e ferindo dez pessoas, segundo balanço da Defesa Civil estadual, além dos três mortos. Sete pessoas se feriram após a escuna em que estavam virar em Ubatuba, no litoral norte. Uma criança está internada em estado grave. Outra vítima ficou ferida na mesma cidade, após ser atingida por uma árvore. E em São Sebastião, outras duas pessoas tiveram ferimentos após uma embarcação virar. Em escala atmosférica, os episódios tiveram a mesma origem. De acordo com a meteorologista Andrea Ramos, a frente fria avançou acompanhada por um amplo campo de ventos associado ao contraste de pressão. No interior, tempestades transportaram para a superfície ventos muito fortes presentes em níveis mais altos da atmosfera. No litoral, a interação entre o relevo da Serra do Mar e a circulação atmosférica ajudou a intensificar as rajadas em alguns pontos. Vendaval era previsto Apesar da magnitude dos impactos, os meteorologistas afirmam que o cenário de risco vinha sendo apontado pelos modelos numéricos dias antes. A principal limitação da meteorologia continua sendo indicar exatamente onde ocorrerão os fenômenos mais extremos. Entretanto, o vendaval foi encarado de formas diferentes pelas Defesas Civis de São Paulo e do Rio de Janeiro. Na terça (28), o órgão estadual paulista emitiu um alerta informando da possibilidade de ventos fortes e anunciou a formação do gabinete de crise para atender os possíveis chamados, o que acabou agilizando os trabalhos. "A ventania ficou dentro de uma margem do que prevíamos. Tanto que montamos nossa estrutura de pronta resposta. Demos total atenção à gravidade do cenário. Minutos antes de o vento chegar com força, soltamos o alerta cell broacast para o litoral e para a capital. Com certeza isso ajudou a salvar muitas vidas", diz o porta-voz da Defesa Civil de São Paulo, o tenente Maxwel Souza. No Rio de Janeiro, no entanto, a população cobrou o governo por não ter recebido aviso prévio. A Defesa Civil fluminense não enviou o alerta via cell broadcast. Até uma hora antes do início da ventania, a meteorologia apontava para "risco alto" de rajadas de ventos fortes, e não "muito alto", segundo o órgão. Esse cenário "não atendia aos critérios para o acionamento", continuou a Defesa Civil, destacando que o Cemaden-RJ (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) emitiu alerta SMS à população às 15h30, notificando sobre rajadas de vento no estado. Nas redes sociais, contudo, cariocas afirmam não terem recebido nenhuma mensagem. Outros dizem ter recebido SMS por volta das 17h30, uma hora depois da chegada dela na capital. Às 17h, havia 62 atendimentos simultâneos do Corpo de Bombeiros. Como resultado, as fortes rajadas de vento causaram a morte de duas pessoas —o ex-jogador do Botafogo Tássio Maia dos Santos, 41, e seu amigo Vandré Cordeiro—, após a queda de um muro, paralisaram todo o transporte da região metropolitana, atrasaram voos e deixaram centenas de milhares de pessoas sem luz. Às 18h20 desta quinta (30), o estado do Rio ainda tinha 449.528 imóveis sem energia elétrica, segundo a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica). Só na capital eram 178.494 unidades consumidoras. Na região metropolitana de São Paulo, que teve cerca de 106 mil clientes às escuras no auge do vendaval, no mesmo horário desta quinta tinha apenas 19 mil sem luz.
Ventania que matou ao menos 5 pessoas em SP e RJ superou previs�o e foi intensificada pelo El Ni�o
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